quinta-feira, 22 de maio de 2014

Constança

A Constança sabia que este dia ia chegar, ela apenas não contava que fosse tão cedo…
Acordou, entorpecida ainda, desgrenhada e frágil como sempre. Os seus ossos estavam cada vez mais vulneráveis, o seu sangue continha cada vez menos nutrientes. A Constança anda obcecada com o seu corpo. Cospe, nas mais grosseiras palavras, que quer ser magra e bonita como a irmã. Não obstante, quer ser melhor que a irmã em tudo quanto lhe seja possível. 
Debicou meia maça e atirou um iogurte líquido para a sua mala. Como sempre, a mãe olhou-a com o esverdeado dos olhos enevoando-se-lhe e um profundo desgosto envolto num enorme sentimento de culpa. A mãe sempre soube que a Constança sempre se sentiu pouco amada, não que o fosse, na realidade, porém, era o que sempre deixava transparecer: uma enorme falta de atenção. Talvez por isso a rebeldia, as tentativas de suicídio, as faltas às aulas, a arrogância, a droga, as bebedeiras…tudo o que voltasse todas as atenções da família apenas e só para si.
Já a irmã mais velha, Marlene, nunca dera problemas: boa aluna, bem comportada, compreensiva com todos, um sorriso sempre no rosto, uma beleza invejável, enfim, uma doçura tremenda. Até mesmo agora com a doença e sabendo que a qualquer momento morreria, esta jovem nunca parou de viver, nunca cruzou os braços nem se conformou com a sua infeliz sorte (…)
Quando a Constança regressou da escola encontrou a casa vazia… Podia ter ligado à mãe para saber se algo se passava com a irmã, mas preferiu sair, fumar uns cigarros com os amigos. É sempre assim, os pais só querem saber da filhinha preferida, muito provavelmente foram dar um passeio os três. E ela? Nunca passará da filha problemática e invejosa. A outra, que se faz de doente, não passa de uma sonsa egocêntrica. Estes são alguns dos pensamentos da Constança, entre outros, mais ímpios, ainda (…)
Passaram quatro semanas desde o funeral. Nem a própria Constança consegue desenhar em palavras as suas emoções. Tem consciência dos seus erros, porém, agora é tarde para lamúrias tão irrelevantes. 
Ela só acalentava ser boa em algo, ter qualidades, ser o motivo de orgulho de alguém, mas sempre que realizava uma boa ação, a irmã realizava outra ainda melhor. Não o fazia propositadamente, seguia os seus instintos que eram bondosos, alcançando mesmo o altruísmo. E porque é que só agora a Constança se apercebe disso? Porque é que só depois de ter magoado todos à sua volta se apercebe que o seu egoísmo e a sua falta de piedade apenas a destruíram? 
Em suma, a Constança apercebe-se de que rejeitou a única oportunidade que teve de fazer algo que orgulhasse verdadeiramente toda a família. Um rim, apenas. Um rim era tudo o que Marlene precisava para viver, e tudo o que Constança lhe negou vezes infinitas em forma de gritos altivos. 
E agora já não há nada a fazer, a irmã partiu para o além e ela ficou agarrada à culpa. E junto com a culpa guarda agora o desejo de fazer algo pela humanidade, o desejo de salvar vidas. Não espera perdão pela vida abateu sem dó nem compaixão.
Seguir medicina, voluntariado, campanhas para recolha de fundos em prol dos países em desenvolvimento, instituições de apoio a vítimas, sejam elas de que o forem, são alguns dos projetos que a Constança tem em mente e dos quais não tenciona desistir, mesmo sabendo que terá de trabalhar arduamente. O futuro espera-a, a humanidade suplica-lhe ajuda. E ela sabe-o, e não o vai ignorar desta vez.

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