domingo, 5 de julho de 2015

Carlota

Meu amor, 
Desculpa não ter ficado para o teu casamento. 
Desculpa por não te ter levado à escola no primeiro dia de aulas.
Desculpa por não ter estado por cá para te dar os conselhos que a tua adolescência exigiu. 
Desculpa por não ter podido cumprir o meu papel de mãe…
Quando leres isto, já terei partido há muito tempo.
Vi-te nos meus sonhos futuristas e eras linda. Quem me dera estar aí para te dar um abraço!
Quando soube que ia morrer em breve, foste a primeira pessoa em quem pensei. Espero que me perdoes por ter estado ausente em quase toda a tua vida. Lembrar-te-ás de mim!?
Estou certa de que o teu pai cumpriu na perfeição o seu papel e até parte do meu. Foi assim, não foi? Eu sei que foi… 
O teu pai foi, sem dúvida, o grande amor da minha vida. Nunca amei mais ninguém. Quando o conheci, percebi que tinha andado enganada a pensar que sabia o que era o amor, mas, na verdade, só o soube a sério quando me apaixonei pelo teu pai. 
És fruto do mais sublime amor, um fruto muito desejado. Eu e o teu pai amamos-te mais do que tudo! 
Infelizmente, eu não pude ficar para te dizer tudo isto, olhos nos olhos, mas sei que ele o fez por mim. Assim como também sei que te terá entregado esta carta, exatamente hoje, no dia em que subirás ao altar. 
Peço-te que peças desculpa aos meus netos por não os poder levar ao parque nem dar longos passeios na praia e comer gelados na esplanada. Por não poder ficar com eles todos os sábados à noite em que irás sair com o teu marido. Por falar nele, espero que te trate tão bem como o teu pai me tratou sempre. 
Escrevo-te do passado para o futuro, com a sensação de presente. Imagino-te vestida de branco e braço dado ao teu pai a desfilar pela igreja. Vejo toda a família a sorrir-te e a dizer-te o quão linda és. Desculpa por não ter ficado para as fotografias…
Tive que sair mais cedo. O meu corpo assim o exigiu. Pela minha alma teria ficado, mas o corpo foi soberano e eu não resisti.
Quero que saibas que te amo do fundo do coração e vou sempre amar mesmo estando fisicamente ausente. 
Beijinhos da tua mãe que teve que ir embora mais cedo. 
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-Carlota!! Eu sei que as noivas chegam sempre atrasadas, mas por este andar ele pensa que desististe. Despacha-te!
Limpei as lágrimas, a maquilhagem tinha saído, mas não me importei. A minha mãe diria que eu estava linda assim. Dobrei a carta e guardei-a na minha mesinha de cabeceira. Depois do casamento, viria busca-la e levá-la para a minha nova casa. Dei o braço ao meu pai e fui. Quem me dera que Deus me desse tréguas e, pelo menos hoje, a minha mãe pudesse estar comigo…

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