terça-feira, 8 de dezembro de 2015

"Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos" - Patrícia Rebelo

Patrícia Rebelo é autora do livro "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro"  - um relato sentido de uma jovem que perdeu dois anos de memórias, tendo que enfrentar uma vida da qual não se recorda. 
A autora com o seu livro
A escrita é, para ti, um refúgio ou vai além disso? 
A escrita, para mim, é um refúgio. É o tentar expressar os meus sentimentos, é o tentar resolver os meus problemas e conseguir encontrar alguma resposta para eles, mesmo que tenha que ser eu a dar essa resposta.

"Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" - porquê este título? 
Porque foi, efetivamente, isso que o Diogo me disse. Este livro é muito acerca do Diogo, que é o rapaz com quem eu namorei, e é muito direcionado a ele, quer eu queira quer não. Eu andei muito às voltas com o título, a certa altura não sabia que título colocar. Mas, um dia, escrevi um texto que se chamava "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" e foi do género: É este!

Sentes que deste demasiada importância ao Diogo? 
Sim. Mas toda a gente dá demasiada importância ao primeiro amor, portanto...

"Cartas À Tua Ausência" era, inicialmente, o nome da tua página no facebook. Que tipo de conversas podemos ter com a ausência?
Várias. Eu com a ausência do Diogo tive bastantes. As primeiras foram conversas de raiva do género: porque é que ele estava ausente? porque é que ele não dava um passo para estar presente? Depois foi deprimir por causa dessa mesma ausência. Há muitos textos em que tu deprimes e consegues criar ali qualquer coisa. E, efetivamente, depois é o bater a porta e: "ok, minha amiga, vamos ter uma conversa a sério por tudo aquilo que eu passei", e resolver o assunto. 

Escrever sobre sentimentos é um ato de coragem ou desespero? 
Nem uma coisa nem outra. Há pessoas que me disseram que era de coragem por expor os meus sentimentos. Outras pessoas disseram-me que seria um bocadinho de desespero. Eu não acho que seja nenhum dos dois. Eu acho que cada pessoa arranja uma forma para se conseguir resolver, naquele momento aquela foi a minha forma. Portanto, foi uma forma de resolução.

Acreditas no amor? Sentes-te capaz de voltar a amar? 
Sim. Até aqui não conseguia porque tinha sempre o Se. Se fosse com o Diogo, se resultasse... Neste momento, isso já não acontece. No entanto, o rapaz que vier agora vai ter que provar muita coisa. Não chega dizer: "olha eu gosto muito de ti, vai ser para sempre" porque isso já não pega. 

Se pudesses voltar atrás e escolher, evitarias a perda da memória ou sentes que aquilo que acabaste por ganhar com isso superou dois anos de memórias esquecidas?
Isso é uma pergunta complicada! A perda de memória não foi algo que eu escolhi. Antes da perda da memória sei que tomei decisões minhas das quais estava muito segura. Se calhar, se não tivesse perdido a memória ainda estaria com o Filipe, todos diziam que tínhamos um namoro firme. Mas se calhar também não tinha dado origem ao livro, não me tinha descoberto na escrita, que tinha sido uma coisa que eu tinha deixado um bocadinho para o lado. No meio disto tudo, já aprendi a lidar com a perda da memória.

É difícil, para ti, imaginar como é que seria se não tivesses perdido a memória?
Sim. Sim até porque para isso teria que colocar o Filipe e uma data de situações que para mim não existiram e existem só porque as pessoas me dizem que existiram, mas aquilo que eu fiz quando perdi a memoria foi voltar ao Diogo, que era aquilo que eu conhecia. Por isso, se não perdesse a memória não sei o que havia ali, portanto, não faz sentido ponderar sobre isso. 

"Como sobrevivemos quando já não nos lembramos de quem somos?"
Não sobrevivemos. Este livro é a prova disso. Tenho um capítulo, que é o 56, que fala exatamente da perda da memória e mostra que não conseguimos sobreviver, vamos lidando com isso, reconstruindo a nossa vida. Mas não sabemos o que há ali para aprender. Por exemplo, não vejo a minha vida agora a fazer planos, também não acho que seja uma questão de sobrevivência, mas uma questão de defesa. Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos, há uma parte que não é nossa, há uma vida que não é nossa e toda a gente diz que é. Termos que lidar com isso é desesperante e não conseguimos viver nem sobreviver com isso. Quando conseguimos encaixar isso e chegamos ao ponto de "ok, de facto temos que lidar com isto porque isto aconteceu, eu perdi a memória, há uma vida de que não me lembro, vamos encaixar isso" é muito complicado. Eu olhava para as fotografias e não achava que era eu, não me lembrava. Por isso, não se sobrevive. É apenas um dia de cada vez. Este livro mostra isso. Acabamos por não fazer planos e o futuro é um dia de cada vez. Vamos vivendo.
Cátia Cardoso Entrevista Patrícia Rebelo

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