sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

À Dona Irene, qualquer que seja o seu nome.

Era sexta-feira, o dia de lhe irem limpar a casa. Como não gostava de ver os outros limpar, a Dona Irene decidiu apanhar um comboio e ir lanchar a Coimbra. Eram cerca de duas horas de viagem, desde Valadares. Mas o que são duas horas na vida de uma mulher que é sozinha? Há quinze dias atrás, fora com uma amiga, hoje, a amiga não pudera, então, foi assim mesmo, sozinha. Estamos em finais de fevereiro e os primeiros raios de sol já acompanham o dia-a-dia. Ficar em casa num dia assim é pecado. 
Foi lanchar a Coimbra, a Dona Irene. E, na viagem de regresso, sentaram-se no banco à sua frente dois estudantes. Eram namorados. Trocavam beijos e mimos durante a viagem. Ele ia sair em Aveiro, ela um pouco mais à frente. Trocavam os beijos da despedida quando, antes de ele sair, a Dona Irene confessa: "Eu só tenho pena de não ter aqui um papel e uma caneta para fazer um risquinho por cada beijo que vocês já trocaram" O jovem casal sorri e Dona Irene acrescenta: "Não me levem a mal, eu gosto muito de ver o amor." O casal volta a sorrir e ele sai despedindo-se dela. 
Ela, a jovem, uma amante incondicional de viagens de comboio e da oportunidade de conhecer pessoas e de comunicar, de trocar palavras inéditas com pessoas nunca antes vistas e com quem não havia certeza de se voltar a encontrar. A Dona Irene continuou o seu discurso, a contar como gostava de ver o amor no mundo. A jovem concordava com a senhora que lhe era tão simpática. E conversava com ela, amigavelmente. A Dona Irene contou-lhe que era sozinha, que o marido morrera um mês antes de fazerem cinquenta anos de casados. Na cama do hospital, olhou-a e disse-lhe "amo-te", ela respondeu "Eu também te amo, mas não te consigo salvar", ele fechou os olhos, ela perdeu-o. Cinco anos depois, perdeu o único filho que teve. A nora não lhe fala, o neto, é um jovem nem-nem de 27 anos que pouco lhe liga. Tem uma sobrinha a estudar economia e uma irmã com quem mantém contacto suficiente para falar delas com carinho. 
Mas a Dona Irene continua a viver. 80 anos de viagens, de passeios e lanches em cidades diversas, de conversas com desconhecidos, de saudades. 80 anos, ali, à minha frente. E eu senti-me tão pequenina e feliz por me ter cruzado com esta senhora, que decidi chamar Irene mas, na realidade, nunca chegamos a saber o nome uma da outra. É por isto, é tanto por isto, que amo o mundo e a vida e que sou feliz.

Sem comentários:

Enviar um comentário