segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Sou filha do Mundo

Sou filha do mundo e só o mundo me pode dominar. Só o mundo pode enviar-me para um ou outro caminho, só o mundo me pode manter aprisionada numa vida qualquer. Sou filha do mundo, porém, estou isenta de dono e de domínios. O mundo é livre e eu, sendo sua filha, sou-o também. Sou filha do mundo e somente o mundo poder-me-ia julgar. Sou filha do mundo. Vivo de acordo com as ideologias reprovadas pelos outros. Vivo de acordo com os meus (in)constantes devaneios. Percorro destemidamente cada ruela que se abre à minha frente. Vivo de cidade em cidade, a ansiar pelo desconhecido, engrandecem-me as camas onde durmo, as casas que visito e as pessoas que conheço. Engrandece-me o mundo e as suas revelações. Engradece-me o não ser de ninguém e o não possuir ninguém por tempo demasiado. Engrandecem-me os olhares repletos de censura com que sou defrontada. Engrandecem-me os meus antagónicos pensamentos e as minhas impulsivas determinações. Engrandece-me a liberdade de ser do mundo, de não ter pouso certo, de vadiar feliz da vida, de me assumir orgulhosamente como uma depravada sem rumo, uma inócua e cândida personagem que habita tudo o que encontra e não lhe pertence. Engrandece-me a entrega que proporciono à boémia. Sinto-me humildemente grande, pela entrega que asseguro ao que me defronta. Nenhum outro modo de vida me completaria. Não há copo que me vicie, nem droga que me controle. Não há palco que me refreie nem homem que me dome. Não há óbice que me induza ao vacilo. O meu corpo é uma eterna chama acesa que nenhum pedaço de água se atreve a afagar. A minha mente é uma desobstruída peça, idónea de sobrepujar as mais degradantes peripécias. Vivo encantada com a minha capacidade de livre arbítrio, engolida pelos meus sonhos estrambólicos. Busco definições do que é indefinido, e procuro o possível do que todos consideram impossível. Usufruo de ilimitada liberdade e respiro com vivacidade. Não temo a morte, nem detenho receios concretos. Sou filha do mundo e só o mundo decreta o meu destino. Sou filha do mundo e somente o mundo poderá apoderar-se de mim. Sou filha do mundo e, por isso, vivo sem amarras, sem se's e mas's. Sou filha do mundo e, por isso, não sou de ninguém. Sou filha do mundo e estou ao alcance de todos os meus impulsos e vontades momentâneas. Sou filha do mundo e o mundo é a minha casa. Confio no mundo e nos seus outros habitantes, confio na vida e nos sorrisos com que me cruzo, confio na bondade humana e nos afetos do momento. Confio no mundo, afinal, sou sua filha. Sou filha do mundo e, por isso, sou livre e tenho todo o tempo do mundo para viver. Sou filha do mundo. Ou talvez seja apenas jovem.


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