sexta-feira, 10 de março de 2017

Abastança de Identidades

O que é isso de crise de identidade? Nada para mim. Nunca me vi isenta de uma identidade. Na verdade, sempre senti que as tinha em demasia. Não se pense, pois, que ter uma abastança de identidades é melhor que uma crise. Ter uma abastança de identidades é querer ser tudo e saber que desse tudo apenas se pode ser um. De todas as identidades que vemos como nossas e que sentimos em nós, apenas podemos abraçar uma. Numa crise de identidade, não sabemos quem somos e isso pode levantar tristeza e até frustração. Porém, numa abastança de identidades existe a tristeza e a frustração de sabermos quem somos e de sabermos que não podemos ser tudo o que somos. Se numa existe a dúvida, o desespero, a ânsia de se querer saber quem se é, na outra existe a revolta e a insatisfação por não se poder ser tudo o que se é. As crises de identidade tendem a passar quando as pessoas se resolvem e encontram finalmente aquilo que são. A abastança de identidade nunca passa, é algo que nos acompanha sempre ao longo de toda a vida, porque nuns momentos somos uma parte daquilo que somos e noutros momentos somos outra parte, porém, há sempre algo que nos impede de sermos sempre tudo aquilo que realmente somos. É grave viver numa abundância de identidades. É grave e penoso. Aqui, não há caminhos para encontrar, há caminhos para eliminar. E para ganhar estamos sempre preparados, porém, para perder não há forma de apaziguar a tristeza de ver ir aquilo que tanto queríamos ver ficar. Numa abastança de sonhos, é fácil. Sabemos que temos de nos desfazermos de uns, para podermos fazer outros. É um desaponto que cai no esquecimento com o passar do tempo, ou que nos acompanha a vida toda, mas, pelo menos, acompanha sempre a mesma identidade. Numa abastança de identidades, nunca vamos saber como será o nosso futuro, sabemos como gostaríamos que fosse, sabemos tão bem quem somos!, e sabemos simultaneamente que não podemos ser tudo o que somos. E o pior de tudo é que, no fundo, a frustração de não se saber que parte de nós escolher para ser, a desilusão de não se poder ser por inteiro, é bem capaz de nos poder enviar para uma crise de identidade.

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