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sexta-feira, 26 de maio de 2017

Somos parvos por termos medo de morrer

Somos parvos por termos medo de morrer. Devíamos era ter medo de viver, porque a vida é que nos trama e nos coloca em situações limite. No fundo, a morte é apenas a salvação, o fim da dor, do medo e do fracasso. Somos parvos por termos medo de morrer, quando a vida é que é tão assustadora e ímpia. A incerteza do amanhã é que devia intimidar-nos. Se, ao menos, morressemos, tudo estaria resolvido e nada havia a temer. Mas, se continuarmos vivos, podemos ter de enfrentar os mais desgastantes momentos e as mais fortes mágoas. Enquanto estivermos vivos, os problemas permancerão. Enquanto vivermos, a dor acompanhar-nos-á. Será que os momentos de alegria valem o medo da morte quando postos ao lado dos momentos de dor e sofrimento? Será que o medo que temos é o de morrer ou o de morrer sem termos sido felizes? Andamos uma vida inteira à procura da felicidade. E, cada vez mais insatisfeitos, queremos que a morte nos vá alargando o prazo de procura.

sábado, 18 de março de 2017

O mundo onde quero ser

Este não é o mundo onde quero ser. É o mundo de onde quero fugir. Este não é o mundo que eu vi, no futuro, à minha espera. Não é o mundo das histórias que me contaram e leram. Não é o mundo que me prometeram. Agora percebo quando diziam que o bom da vida é não saber o que ela é. Este mundo, este espaço de sôfregos e âmagos, este espaço de desespero e dor, de pranto e angústia, em nada se assemelha com aquilo de que sempre me falaram ao referirem-se a isto. Se isto é a realidade nua e crua tragam-ma vestida e cozida, por favor. Assim, dispenso-a. 
Dá-me a tua mão. És tu ou todas as minhas inseguranças. És tu ou todo o meu mundo repugnante. És tu. O escape único de um mundo que não é o mundo onde quero ser. Conforto é uma palavra cara e díficil de encontrar. Dá-me o teu abraço. Prende-me no teu abraço. Os teus braços são a única armadura que me faz sentir forte e capaz de enfrentar o resto. O teu abraço é conforto, é segurança, é calma e felicidade. Não há mais nada assim para mim. Não há mais nada que me seja precisa, por agora. Dá-me a tua mão e vem escutar comigo as baladas que nos ensinaram a amar. Dá-me a tua mão e despede-te de receios. Se me deres a tua mão, prometo mostrar-te um mundo que é o mundo onde quero ser. 
Quero ser num mundo de racionalidade, repleto de falhas e surpresas. Quero ser onde possa ser o meu ser com os meus defeitos que me esforçarei por amenizar e com as minhas qualidades que farei por manter. Quero ser onde, de uma forma ou de outra, tudo tenha solução. Quero ser a poesia acesa de uma vida desejada, quero ser o fado da saudade, as palavras da sinceridade. Quero ser o corpo do pecado, cometido a dois. Quero ser num mundo imperfeito, mas racional, isento de utopias, mas vivido. Então, dá-me a tua mão, e leva-me no teu abraço numa viagem pelo mundo onde quero ser. Prometo não fugir.  

sexta-feira, 10 de março de 2017

Abastança de Identidades

O que é isso de crise de identidade? Nada para mim. Nunca me vi isenta de uma identidade. Na verdade, sempre senti que as tinha em demasia. Não se pense, pois, que ter uma abastança de identidades é melhor que uma crise. Ter uma abastança de identidades é querer ser tudo e saber que desse tudo apenas se pode ser um. De todas as identidades que vemos como nossas e que sentimos em nós, apenas podemos abraçar uma. Numa crise de identidade, não sabemos quem somos e isso pode levantar tristeza e até frustração. Porém, numa abastança de identidades existe a tristeza e a frustração de sabermos quem somos e de sabermos que não podemos ser tudo o que somos. Se numa existe a dúvida, o desespero, a ânsia de se querer saber quem se é, na outra existe a revolta e a insatisfação por não se poder ser tudo o que se é. As crises de identidade tendem a passar quando as pessoas se resolvem e encontram finalmente aquilo que são. A abastança de identidade nunca passa, é algo que nos acompanha sempre ao longo de toda a vida, porque nuns momentos somos uma parte daquilo que somos e noutros momentos somos outra parte, porém, há sempre algo que nos impede de sermos sempre tudo aquilo que realmente somos. É grave viver numa abundância de identidades. É grave e penoso. Aqui, não há caminhos para encontrar, há caminhos para eliminar. E para ganhar estamos sempre preparados, porém, para perder não há forma de apaziguar a tristeza de ver ir aquilo que tanto queríamos ver ficar. Numa abastança de sonhos, é fácil. Sabemos que temos de nos desfazermos de uns, para podermos fazer outros. É um desaponto que cai no esquecimento com o passar do tempo, ou que nos acompanha a vida toda, mas, pelo menos, acompanha sempre a mesma identidade. Numa abastança de identidades, nunca vamos saber como será o nosso futuro, sabemos como gostaríamos que fosse, sabemos tão bem quem somos!, e sabemos simultaneamente que não podemos ser tudo o que somos. E o pior de tudo é que, no fundo, a frustração de não se saber que parte de nós escolher para ser, a desilusão de não se poder ser por inteiro, é bem capaz de nos poder enviar para uma crise de identidade.

domingo, 1 de janeiro de 2017

Janeiro e Crianças

Janeiro é o início do ano e as crianças são o início da vida. Creio ser legitima tal afirmação. Crianças. A faixa etária do ser humano que uns repugnam e outros idolatram. O que têm estes seres que os distingue? A maioria dos adultos tem algo que a distingue das crianças: não se lembrar de como é ser criança. Cresce o ser humano e apaga-se-lhe de imediato a memória dos tempos em que a inocência era a sua maior caraterística. 
Talvez seja ilógico que alguém que saiu há tão pouco tempo da adolescência venha agora falar da infância como se de uma pessoa de idade média se tratasse. Ou talvez só o faça por ainda ter presente grande parte das recordações destes tempos de início de vida. (Assim se espera que o tenha sido: início de vida.) Os adultos esquecem-se de que já foram crianças. Mas, como pessoas mesquinhas que são - que somos, peço desculpa - só se esquecem para o que lhes é vantajoso. Para apanhar uma mentira, para percecionar uma criança que se prepara para fazer, ou que já fez, uma traquinice, para, enfim, se vangloriar, dizendo "Eu também já tive a tua idade...". Posto isto, quantos adultos se lembram de como se sentiam com castigos, repreensões, posturas e palavras com que eram confrontados nos seus tempos mais precoces? Quantos adultos, ao repreender - ou chamemos-lhe educar(?) - uma criança é que se colocam no lugar da mesma para tentarem perceber como é que ela se sentirá? Que se acusem todos, porque, até hoje, cruzei-me com não mais que meia dúzia deles.
Saramago - esse grande indivíduo - dizia que as crianças estavam sempre a nascer, porém, nasciam "de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida" e alertava - e bem! - para o cuidado que se deve ter com uma criança. Talvez seja injusta a comparação, mas é frequente que se tenha mais cuidado com um idoso do que com uma criança e isso, sim, sem talvez mas com toda a certeza, é injusto. Há que ter cuidado, mesmo muito cuidado, com as crianças. Há que as educar - que é o que menos se faz com elas, hoje em dia - há que as saber cuidar e, acima de tudo, compreende-las sem que tenham de ser elas a falar. 
Já todos fomos crianças. Se nos afundarmos por breves minutos na memória vamos entender que também tivemos as nossas tristezas sofridas em silêncio, os nossos desgostos padecidos e as nossas frustrações imerecidas. Não contribuamos para que outras crianças passem por isso também. E é-vos isto dito por alguém que, saibam, não é, de todo, amante da infância nem das crianças - pela forma como estas são iludidas pelos adultos e pela falta de educação que estas têm, embora a culpa não seja delas, mas sim dos seus educadores. É-vos isto dito por alguém que estima as crianças enquanto faixa etária e enquanto seres humanos - embora saiba que seres humanos há bons e menos bons. É-vos isto dito por alguém que já foi criança e não esquece isso - nem vai esquecer, certamente, que de falta de memória nunca padeceu. É-vos isto dito, note-se, por alguém implora a atenção da humanidade para as crianças. Uma atenção que preze pelos valores, educação e sentimentos delas. Uma atenção que as cuide, como se rega uma flor que acabou de nascer. Afinal, elas são o início (da vida), e se o início não for bom, é seguro dizer que, sem bases, nada (de bom) se construirá.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Posturas

A nossa passagem é sempre mais curta do que aquilo que gostaríamos. Embora poucos admitam um desejo de eternidade, muitos são os que acrescentariam, se pudessem, décadas de anos aos que lhes estão destinados a viver. E somente a sensação de que se viveu intensamente pode aliviar a dor do pensamento de morte/fim. Não, não se consome todo o desalento, o fim é algo que, não só na vida, nos transtorna e nos desassossega de forma inevitável. No entanto, a entrega cedida aos momentos e o vivenciar cada um intensamente são formas de amenizar as feridas do adeus - ou do medo dele. E são também posturas que em muito contribuem para a felicidade e satisfação pessoais. 

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Pensamento do dia (ou divagações da madrugada)

É díficil percecionar os momentos, no momento. Nem sempre é explícita a explicação de atitudes e palavras que outrora usamos. Porém, o tempo passa e deixa ficar evidências. No momento, sentimos a sua força. Depois do momento, percecionamos a sua força. Nada é dito por acaso. Nenhuma ação é por acaso. O tempo é mágico. E o mais bonito é que a vida também. 

quarta-feira, 29 de junho de 2016

(Ir)realidades

E se nunca tivesses nascido? Se nunca tivesses existido? 
Já paraste para pensar como estaria agora a tua vida se num ou noutro momento tivesses tomado outras decisões e atitudes em vez daquelas que tomaste? 
Se tivesses vivido noutro lugar, se tivesses andado noutra escola e conhecido outras pessoas, se tivesses escolhido outro curso, se nunca tivesses pisado determinada cidade... Já paraste para pensar como seria se as pessoas que existem na tua vida e são importantes para ti nunca tivessem cruzado os seus caminhos com o teu?
Olha para a vida que tens e imagina o quão diferente poderia ser. Melhor? Pior? Impossível saber. 
O peso das decisões que tomamos é avassalador, pequenas opções podem determinar o rumo da tua vida. Vê só o tamanho da responsabilidade que é viver. Ter de tomar conta de uma vida, ser responsável total por uma vida - algo tão precioso. 
Todos os dias, somos forçados a agir. E cada pequena atitude é um atalho ou a estrada principal para algo. 
Todos os dias, vemos, sentimos e vivemos. Todos os dias, podemos fazer algo diferente com a nossa vida. 
É assustador olhar à nossa volta e imaginar no quão diferente tudo podia estar. 
Aquela pequena decisão que tomamos hesitantemente mas que hoje é a mesma que confere sentido à nossa vida. Aquela grande decisão que tomamos e não devíamos ter tomado porque nos levou à ruína. Todas as decisões que já tomamos não deixam de ser curiosas. Como seria se não as tivéssemos tomado? 
É este mistério, este pânico, esta sensação de "E se..." que se torna fascinante e que é motor de pensamentos profundos e divagações constantes. E é isto que é viver. 
No entanto, surge a questão "Será que tudo depende mesmo de nós?". Às vezes, acontece tudo de forma tão estruturada que somos confrontados com a palavra 'destino'. Existe, não existe? Manda mais que nós, manda menos? E as coincidências? Acreditamos, não acreditamos? 
E é aqui que reside a permanência do fascínio. 

sábado, 4 de junho de 2016

Masoquismo efervescente

Quando nos sentimos felizes quais são exatamente as sensações que nos dominam? Que estupidez querer exatidão quando se fala de sentir. 
Mas que coisa é essa da felicidade e por que razão há tanta gente a queixar-se da sua ausência? 
É que tristezas, desilusões, todos têm, todos expõem, todos partilham. E as alegrias, a sensação de felicidade não pode revelar-se por que razão? 
Sim. Nada dura sempre. Os momentos mudam. Os sentimentos à flor da pele não são sempre semelhantes. Os momentos de felicidade não são eternos. Os de desgosto também não. É por isso que a vida é tão especial.
Não obstante, se promovemos tanto as desilusões e infelicidades porque não valorizamos as - ainda que, por vezes, pequenas - alegrias? 
Somos pessimistas e masoquistas. Não aceitamos o que de bom a vida nos proporciona. Fechamos os olhos aos aspetos positivos como se eles fossem apenas ilusão. Não. Não são. Ilusão é acharmos que tudo o que é bom - só porque é bom - nos está a iludir. 
O mundo seria feliz se as pessoas se deixassem ser felizes. Se entregassem sem medos. Se libertassem das próprias amarras. Não temos porque não agarramos. Não sentimos porque não abrimos o coração. 
Todos os dias acontecem coisas boas e más. E se nada de mau acontecer é porque já foi um bom dia, ainda que rotineiro. Mas quantos de nós nos deitamos na cama, ao final do diz, e pensamos "este dia foi feliz, que bom viver."? Pois... Mas o "Hoje foi um mau dia" ninguém hesita dizer ou pensar. Não há mal nisso. O mal é não sermos equitativos. O mal é só vermos por metades. O mal é este apego ao masoquismo que parece crescer - nas sociedades - a cada dia que passa. Quase que vira moda. Antes, havia a vergonha de confessar uma depressão. Hoje, parece haver orgulho nisso. 
Casos não são casos, é certo. Porém, acusem-se aqueles que assumem a felicidade sem pudor, aqueles que se entregam à vida sem "ses". Acusem-se e eu calo-me. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

"Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos" - Patrícia Rebelo

Patrícia Rebelo é autora do livro "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro"  - um relato sentido de uma jovem que perdeu dois anos de memórias, tendo que enfrentar uma vida da qual não se recorda. 
A autora com o seu livro
A escrita é, para ti, um refúgio ou vai além disso? 
A escrita, para mim, é um refúgio. É o tentar expressar os meus sentimentos, é o tentar resolver os meus problemas e conseguir encontrar alguma resposta para eles, mesmo que tenha que ser eu a dar essa resposta.

"Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" - porquê este título? 
Porque foi, efetivamente, isso que o Diogo me disse. Este livro é muito acerca do Diogo, que é o rapaz com quem eu namorei, e é muito direcionado a ele, quer eu queira quer não. Eu andei muito às voltas com o título, a certa altura não sabia que título colocar. Mas, um dia, escrevi um texto que se chamava "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" e foi do género: É este!

Sentes que deste demasiada importância ao Diogo? 
Sim. Mas toda a gente dá demasiada importância ao primeiro amor, portanto...

"Cartas À Tua Ausência" era, inicialmente, o nome da tua página no facebook. Que tipo de conversas podemos ter com a ausência?
Várias. Eu com a ausência do Diogo tive bastantes. As primeiras foram conversas de raiva do género: porque é que ele estava ausente? porque é que ele não dava um passo para estar presente? Depois foi deprimir por causa dessa mesma ausência. Há muitos textos em que tu deprimes e consegues criar ali qualquer coisa. E, efetivamente, depois é o bater a porta e: "ok, minha amiga, vamos ter uma conversa a sério por tudo aquilo que eu passei", e resolver o assunto. 

Escrever sobre sentimentos é um ato de coragem ou desespero? 
Nem uma coisa nem outra. Há pessoas que me disseram que era de coragem por expor os meus sentimentos. Outras pessoas disseram-me que seria um bocadinho de desespero. Eu não acho que seja nenhum dos dois. Eu acho que cada pessoa arranja uma forma para se conseguir resolver, naquele momento aquela foi a minha forma. Portanto, foi uma forma de resolução.

Acreditas no amor? Sentes-te capaz de voltar a amar? 
Sim. Até aqui não conseguia porque tinha sempre o Se. Se fosse com o Diogo, se resultasse... Neste momento, isso já não acontece. No entanto, o rapaz que vier agora vai ter que provar muita coisa. Não chega dizer: "olha eu gosto muito de ti, vai ser para sempre" porque isso já não pega. 

Se pudesses voltar atrás e escolher, evitarias a perda da memória ou sentes que aquilo que acabaste por ganhar com isso superou dois anos de memórias esquecidas?
Isso é uma pergunta complicada! A perda de memória não foi algo que eu escolhi. Antes da perda da memória sei que tomei decisões minhas das quais estava muito segura. Se calhar, se não tivesse perdido a memória ainda estaria com o Filipe, todos diziam que tínhamos um namoro firme. Mas se calhar também não tinha dado origem ao livro, não me tinha descoberto na escrita, que tinha sido uma coisa que eu tinha deixado um bocadinho para o lado. No meio disto tudo, já aprendi a lidar com a perda da memória.

É difícil, para ti, imaginar como é que seria se não tivesses perdido a memória?
Sim. Sim até porque para isso teria que colocar o Filipe e uma data de situações que para mim não existiram e existem só porque as pessoas me dizem que existiram, mas aquilo que eu fiz quando perdi a memoria foi voltar ao Diogo, que era aquilo que eu conhecia. Por isso, se não perdesse a memória não sei o que havia ali, portanto, não faz sentido ponderar sobre isso. 

"Como sobrevivemos quando já não nos lembramos de quem somos?"
Não sobrevivemos. Este livro é a prova disso. Tenho um capítulo, que é o 56, que fala exatamente da perda da memória e mostra que não conseguimos sobreviver, vamos lidando com isso, reconstruindo a nossa vida. Mas não sabemos o que há ali para aprender. Por exemplo, não vejo a minha vida agora a fazer planos, também não acho que seja uma questão de sobrevivência, mas uma questão de defesa. Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos, há uma parte que não é nossa, há uma vida que não é nossa e toda a gente diz que é. Termos que lidar com isso é desesperante e não conseguimos viver nem sobreviver com isso. Quando conseguimos encaixar isso e chegamos ao ponto de "ok, de facto temos que lidar com isto porque isto aconteceu, eu perdi a memória, há uma vida de que não me lembro, vamos encaixar isso" é muito complicado. Eu olhava para as fotografias e não achava que era eu, não me lembrava. Por isso, não se sobrevive. É apenas um dia de cada vez. Este livro mostra isso. Acabamos por não fazer planos e o futuro é um dia de cada vez. Vamos vivendo.
Cátia Cardoso Entrevista Patrícia Rebelo

Não perdoo os contos infantis!

Nunca vou perdoar o mundo, a sociedade, as pessoas, pela forma como me iludiram. 
Dizem que a adolescência é a fase das questões. Quem somos? O que é a vida? O que queremos ser? Etecéteras. Etecéteras. Questões mais profundas que nos levam para reflexões, desilusões. 
Porquê? Porque a infância é a fase em que nos iludem de todas as formas e feitios. 
Há algum conto infantil que tenha um final triste? Não. Porquê se na vida o que mais há em falta são finais felizes? Qual é a necessidade que há em que se iludam as crianças? Está bem que é bonito olhar para trás e recordarmos a infância como a fase mais feliz da nossa vida. Acontece que, quanto mais feliz é a infância, quanto mais iludidos somos, mais desilusões teremos, depois, que enfrentar. Mais sofreremos no futuro. Porque é que iludem tanto as crianças? 
Nunca escrevi para crianças. E muitas vezes já mo pediram. Ainda não o fiz, porque não sei como o fazer. Não quero iludi-las com contos de fadas que terminam com um "viveram felizes para sempre." De onde vem esta expressão? Dos contos infantis! Sim, é tudo muito lindo e mesmo em adultos todos adoram recordar estes contos. Mas vocês acreditam em finais felizes? Ou a vida mostrou-vos que estes são apenas utopia? A vida não vos provou o quão utópicos são os contos da vossa infância? Gostastes, pois, de enfrentar a realidade tal como ela é, com todas as suas consequências e dores? Não me parece... 
Claro que é díficil explicar a uma criança que a vida não é como sempre queremos. Mas dizer-lhes constantemente que tudo é maravilhoso não é o mais correto. Deve, sim, explicar-se-lhes, aos poucos, num processo gradual, que nem sempre as coisas acontecem como queremos. Às vezes sim, mas outras vezes não. Para conseguirmos aquilo que queremos temos que lutar muito e, por vezes, uma grande luta não é suficiente. 
Podemos ser felizes. Mas não completamente felizes. Haverá sempre algo em falta. Não se pode ter tudo. Por vezes, temos que fazer opções. Abdicar de umas coisas em prol de outras. 
Se isto fosse explicado às crianças, que progressivamente entenderiam, haveria, na sociedade, menos jovens deprimidos e desiludidos com a vida. 

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sou livre... Tão livre que me sinto sozinha.

Sou um ponto pequenino e escuro numa cidade grande e iluminada.
Sou livre... Tão livre que me sinto sozinha. 
Ouço as rodinhas da minha mala sobre os paralelos da calçada. 
Olho à minha volta. Em dois segundos, duas mil perguntas aparecem no meu pensar. São tantas que tenho dificuldade em percecioná-las, quanto mais em responder-lhes, a todas.
É tudo novo e até mesmo estranho. 
A cidade. As pessoas. Aquele sítio a que chamamos casa. 
Mil e uma emoções percorrem o meu corpo. Sinto frio. É mania minha usar vestidos e saias no inverno. Gosto mais. Mas esta cidade é fria. 
É, ainda assim, talvez a única cidade cujo frio acolhe. 
Embrulho o pescoço no cachecol e mergulho nele o queixo, cobrindo os lábios. O vento baloiça-me os cabelos. Tenho que os cortar. Estou saturada deste cabelo comprido. É bonito e eu gosto, mas dá trabalho e está sempre igual, preciso de mudar!
Olho à minha volta. As perguntas são já cerca de três mil. Não lhes sei responder e isso leva-me a um estado de frustração. 
A frustração é quase já desespero e, num misto de emoções, as lágrimas surgem. Surge também o autocarro. Passo a mão sobre o rosto a fim de o secar e entro no autocarro. Ainda tenho que terminar alguns trabalhos para entregar amanhã.

sábado, 3 de outubro de 2015

E tu, podes morrer agora!?

Podes morrer agora? Podes simplesmente fechar os olhos e morrer?
Vais responder que não, porque nunca se está preparado para morrer. Não te vou julgar. A resposta da maioria seria, certamente, a mesma. Mas alguém tem de ou deveria estar preparado para morrer? Não tem de, nem deve, mas pode estar. 
A morte é o ponto fulcral da vida. Mas a morte nem faz parte da vida, não é? Pois é, mas é a morte que faz a vida valer. 
Porque é que queremos viver e ser felizes? Porque vamos morrer.
Porque é que temos objetivos, sonhos? Porque vamos morrer.
Queremos fazer mil e uma coisas antes de morrer. Queremos sentir que a vida valeu a pena. E é nesses momentos, quando sentimos que a nossa vida já valeu a pena, que podemos morrer.
Infelizmente, a vida está repleta de altos e baixos. Há dias em que sentimos necessidade de criar novos objetivos, em que vemos injustiça em nosso redor e há também dias em que sentimos que tudo faz sentido, em que a felicidade toma conta de nós e em que podemos morrer. Sentes que até àquele momento nada foi em vão, estás feliz e sentes que tens a maior sorte do mundo por estares a viver determinada situação, se morresses, morrerias com a certeza de que a tua vida havia valido a pena. 
Percebes? Já tiveste algum momento assim na tua vida, em que poderias morrer? 
(Eu já. Eu podia morrer agora...)
O grande propósito da vida, é, afinal, a morte. Nós nascemos para morrer. Há que tomar consciência disso. Tu vais morrer. E se não sentes que podia ser agora, faz por sentires. Porque, um dia, irás olhar para trás e ver que as tréguas da morte não foram suficientes para teres feito a tua vida valer a pena. Não interessa se vives vinte ou oitenta anos, interessa, sim, que não tenha sido em vão. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Porque paramos de correr?

O tempo escapa por entre as entranhas dos dedos, enquanto cerramos os punhos na esperança de o segurar para sempre.
É um erro pensarmos que o tempo nos pertence. O tempo não nos pertence, o que nos pertence são os momentos que o tempo nos proporciona, esses, sim, são nossos, se quisermos.
À medida que o tempo passa, proporciona-nos momentos que visam desculpabilizar-se pela sua efemeridade. Mas será que consegue!? Será que os momentos que o tempo nos proporciona são suficientes para perdoarmos a sua brevidade!? Será que isso depende de nós, que devemos aproveitar cada momento ao máximo!?
Excomungamos tantas vezes o tempo por nos encaminhar tão diretamente para a eternidade e nem paramos para pensar que a culpa não é do tempo, mas nossa, que não lhe atribuímos o justo valor.
Porque se o tempo não espera porque é que nós paramos de correr? 

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Querida Coimbra

Tu não me conheces e eu mal sei o teu nome. 
Em breve, encarar-me-às e eu ti. 
Todos os que te conhecem, caem in love por ti. 
Será que o mesmo irá acontecer comigo? 
Excecionalmente, desejo ser como os outros. 
Desejo, também eu, amar-te e deixar-te viver eternamente num cantinho especial do meu coração. 
As expetativas, não nego, são altas. 
Espero que me acolhas no teu coração e cuides de mim como eu precisar. 
Estou aqui, de braços abertos, disposta a abraçar-te com força e sem intenções de te largar. Posso recostar-me, também, nos teus braços? 
Diz-me que sim...

domingo, 5 de julho de 2015

Carlota

Meu amor, 
Desculpa não ter ficado para o teu casamento. 
Desculpa por não te ter levado à escola no primeiro dia de aulas.
Desculpa por não ter estado por cá para te dar os conselhos que a tua adolescência exigiu. 
Desculpa por não ter podido cumprir o meu papel de mãe…
Quando leres isto, já terei partido há muito tempo.
Vi-te nos meus sonhos futuristas e eras linda. Quem me dera estar aí para te dar um abraço!
Quando soube que ia morrer em breve, foste a primeira pessoa em quem pensei. Espero que me perdoes por ter estado ausente em quase toda a tua vida. Lembrar-te-ás de mim!?
Estou certa de que o teu pai cumpriu na perfeição o seu papel e até parte do meu. Foi assim, não foi? Eu sei que foi… 
O teu pai foi, sem dúvida, o grande amor da minha vida. Nunca amei mais ninguém. Quando o conheci, percebi que tinha andado enganada a pensar que sabia o que era o amor, mas, na verdade, só o soube a sério quando me apaixonei pelo teu pai. 
És fruto do mais sublime amor, um fruto muito desejado. Eu e o teu pai amamos-te mais do que tudo! 
Infelizmente, eu não pude ficar para te dizer tudo isto, olhos nos olhos, mas sei que ele o fez por mim. Assim como também sei que te terá entregado esta carta, exatamente hoje, no dia em que subirás ao altar. 
Peço-te que peças desculpa aos meus netos por não os poder levar ao parque nem dar longos passeios na praia e comer gelados na esplanada. Por não poder ficar com eles todos os sábados à noite em que irás sair com o teu marido. Por falar nele, espero que te trate tão bem como o teu pai me tratou sempre. 
Escrevo-te do passado para o futuro, com a sensação de presente. Imagino-te vestida de branco e braço dado ao teu pai a desfilar pela igreja. Vejo toda a família a sorrir-te e a dizer-te o quão linda és. Desculpa por não ter ficado para as fotografias…
Tive que sair mais cedo. O meu corpo assim o exigiu. Pela minha alma teria ficado, mas o corpo foi soberano e eu não resisti.
Quero que saibas que te amo do fundo do coração e vou sempre amar mesmo estando fisicamente ausente. 
Beijinhos da tua mãe que teve que ir embora mais cedo. 
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-Carlota!! Eu sei que as noivas chegam sempre atrasadas, mas por este andar ele pensa que desististe. Despacha-te!
Limpei as lágrimas, a maquilhagem tinha saído, mas não me importei. A minha mãe diria que eu estava linda assim. Dobrei a carta e guardei-a na minha mesinha de cabeceira. Depois do casamento, viria busca-la e levá-la para a minha nova casa. Dei o braço ao meu pai e fui. Quem me dera que Deus me desse tréguas e, pelo menos hoje, a minha mãe pudesse estar comigo…