segunda-feira, 16 de junho de 2014

Teatro

A maior parte das pessoas definiria teatro como “um conjunto de peças dramáticas para apresentação em público, no qual um ou vários atores apresentam uma determinada história que desperta na plateia sentimentos variados”, porém e como quase sempre, eu não me integro jamais nessa maioria.
Para mim, teatro é sempre algo mais do que qualquer outra coisa, é sempre até mais do que a maioria das pessoas que me rodeiam, e coloco, sem hesitar, o teatro no topo da minha tabela de interesses.
Acontece que quando subo a um palco, por mais singelo que seja, eu me reencontro. Quando estou em cima do palco sinto finalmente que sou alguém, quando visto a pele de uma personagem, quando vivo peripécias que não são minhas, quando sinto emoções que não me pertencem é que eu sinto que sou eu.
É como se tudo começasse a fazer sentido para mim, cá em baixo sinto-me vazia, talvez eu tenha nascido com esta sede incontrolável de preencher a minha vida com algo que não me pertence mas apenas dentro do qual me sinto bem, talvez a vida que tento comandar seja demasiado desinteressante ou talvez seja uma vida imposta por uma autoridade superior e que eu me recuso a aceitar.
Em suma, nada me preenche mais do que representar, nada me excita mais que as fantasias do teatro, é fantasmagoricamente avassalador o poder que esta vertente da arte tem sobre mim!
Cátia Cardoso interpreta A Moça em "O Velho Da Horta"

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Constança

A Constança sabia que este dia ia chegar, ela apenas não contava que fosse tão cedo…
Acordou, entorpecida ainda, desgrenhada e frágil como sempre. Os seus ossos estavam cada vez mais vulneráveis, o seu sangue continha cada vez menos nutrientes. A Constança anda obcecada com o seu corpo. Cospe, nas mais grosseiras palavras, que quer ser magra e bonita como a irmã. Não obstante, quer ser melhor que a irmã em tudo quanto lhe seja possível. 
Debicou meia maça e atirou um iogurte líquido para a sua mala. Como sempre, a mãe olhou-a com o esverdeado dos olhos enevoando-se-lhe e um profundo desgosto envolto num enorme sentimento de culpa. A mãe sempre soube que a Constança sempre se sentiu pouco amada, não que o fosse, na realidade, porém, era o que sempre deixava transparecer: uma enorme falta de atenção. Talvez por isso a rebeldia, as tentativas de suicídio, as faltas às aulas, a arrogância, a droga, as bebedeiras…tudo o que voltasse todas as atenções da família apenas e só para si.
Já a irmã mais velha, Marlene, nunca dera problemas: boa aluna, bem comportada, compreensiva com todos, um sorriso sempre no rosto, uma beleza invejável, enfim, uma doçura tremenda. Até mesmo agora com a doença e sabendo que a qualquer momento morreria, esta jovem nunca parou de viver, nunca cruzou os braços nem se conformou com a sua infeliz sorte (…)
Quando a Constança regressou da escola encontrou a casa vazia… Podia ter ligado à mãe para saber se algo se passava com a irmã, mas preferiu sair, fumar uns cigarros com os amigos. É sempre assim, os pais só querem saber da filhinha preferida, muito provavelmente foram dar um passeio os três. E ela? Nunca passará da filha problemática e invejosa. A outra, que se faz de doente, não passa de uma sonsa egocêntrica. Estes são alguns dos pensamentos da Constança, entre outros, mais ímpios, ainda (…)
Passaram quatro semanas desde o funeral. Nem a própria Constança consegue desenhar em palavras as suas emoções. Tem consciência dos seus erros, porém, agora é tarde para lamúrias tão irrelevantes. 
Ela só acalentava ser boa em algo, ter qualidades, ser o motivo de orgulho de alguém, mas sempre que realizava uma boa ação, a irmã realizava outra ainda melhor. Não o fazia propositadamente, seguia os seus instintos que eram bondosos, alcançando mesmo o altruísmo. E porque é que só agora a Constança se apercebe disso? Porque é que só depois de ter magoado todos à sua volta se apercebe que o seu egoísmo e a sua falta de piedade apenas a destruíram? 
Em suma, a Constança apercebe-se de que rejeitou a única oportunidade que teve de fazer algo que orgulhasse verdadeiramente toda a família. Um rim, apenas. Um rim era tudo o que Marlene precisava para viver, e tudo o que Constança lhe negou vezes infinitas em forma de gritos altivos. 
E agora já não há nada a fazer, a irmã partiu para o além e ela ficou agarrada à culpa. E junto com a culpa guarda agora o desejo de fazer algo pela humanidade, o desejo de salvar vidas. Não espera perdão pela vida abateu sem dó nem compaixão.
Seguir medicina, voluntariado, campanhas para recolha de fundos em prol dos países em desenvolvimento, instituições de apoio a vítimas, sejam elas de que o forem, são alguns dos projetos que a Constança tem em mente e dos quais não tenciona desistir, mesmo sabendo que terá de trabalhar arduamente. O futuro espera-a, a humanidade suplica-lhe ajuda. E ela sabe-o, e não o vai ignorar desta vez.

sábado, 5 de abril de 2014

Quando se cresce...

Suspiro (…)
Suspiro e cada suspiro me sobrecarrega mais que o último, cada suspiro é mais pesado e mais doloroso que o outro.
Sinto o castanho dos olhos enevoar-se-me e eu, que perdi todas as forças a batalhar por um pouco de alegria, não consigo evitar esta situação. Tendo em conta todo o tempo que passamos juntas, as lágrimas poderiam, eventualmente, ser as minhas melhores amigas, porque estão sempre comigo, em todos os momentos. Apenas não digo nos “bons e maus momentos” porque simplesmente não existem os primeiros na minha vida.
Sei que de nada me adianta lançar-me por aí a distribuir culpas, porém, sinto-me injustiçada perante todos aqueles que, de algo modo, me iludiram, me fizeram acreditar no mundo e na humanidade como algo positivo, quando, na triste e ímpia realidade, o mundo é um sítio tremendamente horrível e a humanidade…onde está a humanidade? Nos seres humanos não está, certamente.
Quando se é criança é-se forçado a ouvir histórias onde, por mais peripécias que ocorram, no final todos ficam eternamente felizes, tudo acaba bem.
Quando se é criança todos nos fazem as vontades, temos o poder de fazer as escolhas e seguir os caminhos que queremos porque temos a desculpa de ser ‘pequeninos’ – frágeis e dóceis.
Quando se é criança tem-se sempre quem resolva os problemas por nós, basta uma lágrima mimada, uma ‘queixinha’ mal fundamentada ou um simples gemido para que se seja o centro das atenções e se tenha o mundo do nosso lado.
Mas (…) e quando se cresce? O que muda? O que nos deixa envoltos num estado de plena indignação, frustração e total revolta?
É que quando se cresce nem tudo corre bem, mesmo com trabalho e dedicação são muitas as vezes em que se sai derrotado.
Quando se cresce roubam-nos o poder de guiar os nossos próprios caminhos, a vida apodera-se de nós, repele-nos daquilo que mais acalentamos.
Quando se cresce sente-se que o mundo uniu esforços para nos fazer fracassar, é como se ninguém se importasse connosco, como se ninguém quisesse saber a que velocidade respiramos, e então sentimos que não somos nada e nada fazemos no mundo.
Temos vontade de sucumbir para sempre, uma assombradora vontade de fugir de tudo o que nos rodeia e atormenta.

sábado, 29 de março de 2014

Juventude

«Juventude, palavra de significados loucos, os que a aproveitam devidamente são poucos. É a única oportunidade que temos de levar algo desta vida. A única certeza que temos é a de que nascemos para morrer por isso choramos, rimos, descobrimos, sonhamos, construímos, erramos e sentimos! Porque ser jovem é o desejo de ser um adulto realizado. Mas não importa o quanto batalhamos por isso, será uma coisa que nunca ninguém poderá ditar. O nosso futuro somos nós. 
Mas aqui estás tu. Quando a noite chega esvais-te em lágrimas no quarto. Esqueces todas as expectativas que tinhas, todas as palavras de consolo, já não acreditas em nada. Quando pensas mais do queres dói mais do que aguentas. Estás enganada em relação a tudo. Odeias estar enganada. Dói-te o medo que sentes mas dói-te mais o que querias sentir. Dói-te a coragem que tens. Sem forças nem esperança. A esperança perdeu-se na luta, depois de tantas quedas. Agora és só tu apenas rodeada de sonhos, sonhos perdidos, deitados por terra. Foste mais uma que se perdeu no caminho de volta. Tornaste-te no que mais temias. Ninguém sabe o quão infeliz estás, ninguém sabe pelo que tens passado. Lembras-te de tudo, de tudo o que não querias lembrar. As memórias fazem-te ainda pior. Sem rumo, sem ideias, sem ambição ou determinação, ficas-te pelo chão. Agora vives apenas para uma estatística de 6 bilhões de pessoas, será que farás falta no meio de tanto humano? Quem és tu afinal? Estará a criança que foste orgulhosa do que és agora? Mas dolorosamente já nem te interessa.
Quando morreres toda a gente vai dizer que eras linda e simpática e toda a gente vai desenvolver um carinho por ti, mas agora dizem que és antipática e estranha, julgam-te, pisam-te e destroem-te. Humanos desumanos. Por isso talvez seja melhor estar morta. Já nada vale a pena, nada te motiva. Agora toda a gente vai dar valor ao que eras. Tens todo o teu futuro nas mãos. És tu que escolhes o caminho. Tens todo o tempo do mundo, ou provavelmente não. O próximo passo é teu. » 

Marta Fernandes

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sociedade

Em pleno século XXI o racismo e o preconceito ainda existem no seio das várias sociedades. Os cidadãos ainda não aprenderam a respeitar quem os rodeia. Criticam-se todos aqueles que têm uma nacionalidade ou religião diferente, os que são de outra etnia ou cor, criticam-se as diversas formas de vestir e estar, critica-se tudo aquilo que é diferente e, por essa mesma razão, considerado inferior. Porém, quem se julga superior por causa do seu estatuto social, cor, religião e/ou hábitos, não é, se não aquele cuja ignorância (e essa, sim!) é superior aos demais. 
Ainda assim, todos estamos dispostos a apontar o dedo aos preconceituosos sem pensar que, todos nós, pelo menos uma vez na vida, também já criticamos alguém, também já descriminamos alguém. Será, no entanto, mais fácil criticar do que aceitar as diferenças? Ou será que essa discriminação não é, se não pura maldade? 
Qualquer pormenor, por mais insignificante que seja, pode vir a ser alvo de preconceito na sociedade atual que, apesar de ser uma sociedade estudada e com conhecimentos alargados, ainda não adquiriu valores essenciais como o respeito. 
Tantos exemplos poderiam ser dados para provar esta triste situação! Nas escolas, muitos alunos com excesso de peso são discriminados pelos colegas e, por vezes, até por professores, são postos de lado da maioria das atividades e alvo de troça. Mas se os jovens já sabem criticar, então, que é feito dos valores que supostamente lhes foram impingidos pelos seus educadores? Porque é que ninguém foi capaz de lhes ensinar o verdadeiro significado da palavra ‘respeito’? Porque ninguém pode ensinar algo que não aprendeu. 
E porque é que uma pessoa que tenha piercings e tatuagens é olhada de lado, sendo o seu aspeto, muitas vezes, principal fator para que a pessoa não consiga um determinado cargo, um determinado emprego… Isso é inadmissível! 
Não é o aspeto físico que uma pessoa que define quem esta é: se é boa ou má pessoa; se trabalha bem ou mal. Não é a sua cor ou religião que faz de alguém um bom ou mau cidadão. Aquilo que define uma pessoa são os seus valores! E se a pessoa não sabe respeitar o que é diferente então uma grande quebra esbarra contra os seus valores.
Temos de compreender que nem sempre os nossos ideais são os mais corretos, que não somos perfeitos e que nem toda a gente precisa de ser igual a nós para ter os mesmos direitos que nós temos.
Após estas palavras debato-me com um grande dilema, tal como eu, outras pessoas também reconhecessem estes defeitos da sociedade, no entanto, nós criticamos a sociedade mas nós somos a sociedade, e quando se apontam os seus defeitos há que ter em conta que estes também nos pertencem e que ao criticar a sociedade também nos estamos a criticar a nós próprios, e que se algo tem de ser feito para alterar a situação acima descrita então nós devemos ser os primeiros e colocar em prática as medidas necessárias. 
É a nós, cidadãos, que cabe espalhar os valores de que a sociedade tão urgentemente necessita, e mesmo que ninguém siga os nossos passos, pelo menos a nossa consciência fica purificada…