Acendo mais um cigarro na esperança de que me devolva a parte de mim que sinto em falta - não é uma parte, é um todo, o todo.
Sinto o fumo arranhar-me a garganta e as lágrimas percorrerem-me o rosto.
O que aconteceu comigo?
Já ninguém pode devolver-me os anos que sinto que não vivi, apenas fiquei a ver o tempo passar. Ninguém pode apaziguar o turbilhão de sentimentos que há em mim. Perdi-me. Onde fui parar? No que me tornei? Tudo o que eu mais queria era viver... era ser feliz. Ilusões.
E quando caio na realidade, necessito de me abstrair desta, pois que a minha incredulidade perante aquilo em que me transformei é maior do que tudo.
Tusso, incapaz de controlar o fumo. Impressionante como até ele me domina.
Eu sempre soube que só tinha uma vida e, agora, apercebo-me de que a desperdicei por completo. Onde é que eu estava com a cabeça quando optei por não viver? Hoje, é tarde de mais, é impossível recuperar o tempo perdido.
Esmago a beata contra o chão em que estou sentada, da mesma forma como a vida me esmagou contra as minhas inseguranças. Sinto-me aniquilada.


