segunda-feira, 24 de agosto de 2015

O que quer dizer "amo-te"!?

Matilde olhava, orgulhosa, para o seu filho. 

-Amo-te – disse. 
-O que quer dizer “amo-te”, mãe? 
-Quer dizer que gosto muito de ti!
-Então porque não disseste só “gosto muito de ti”?
-Porque amar é gostar muito muito muito, uma infinidade de “muito’s” e assim digo tudo o que sinto numa só palavra.
-Mas podias dizer “gosto uma infinidade de muitos de ti”.
-Podia. Mas amar também é mais do que gostar uma infinidade de muitos. Amar é cuidar, é ter paciência e ser compreensiva. Amar é perdoar e ensinar, é viver e crescer junto. Amar é acolher para sempre. Amar é um sentimento muito forte, indestrutível. Depois de amares alguém, nunca mais será possível voltar atrás e deixares de amar. 
-E tu amas-me?
-Claro que amo, meu filho! 
-E eu também te amo, mãe!?
-Eu acho que sim, mas só tu podes ter a certeza. 
-Eu também acho que sim, que te amo. Mas quando tiver a certeza irei dizer-te, está bem? 
-Combinado, filho. 

Matilde beijou a face do pequeno Eduardo e sorriu. 


Passaram 13 anos, o pequeno Eduardo é já grande com os seus 16 anos. 
Depois de mais um dia de escola, entrou em casa com o verde dos olhos tapados pelas lágrimas. 

-Mãe, a Ângela disse-me uma coisa que não consigo esquecer. 
-O que foi que ela te disse? 
-Disse “Amo-te”.
-Que bom, meu filho. Isso é porque está apaixonada por ti e quer namorar contigo. 
-Também foi isso que eu pensei. 
-Então porque choras, rapaz?
-Porque ontem, cinco semanas depois de lhe ter pedido em namoro e ela ter aceitado, disse-me que já não gostava mais de mim e queria afastar-se. Antes de sair da escola, hoje, vi-a com o Rodrigo e ouvi o que ela lhe disse. “Amo-te”, tal como dissera a mim algumas semanas antes. Ela disse que me amava e depois disse que já não amava e agora disse-lo ao Rodrigo também e se daqui a umas quantas semanas ela disser que já não ama o Rodrigo e decidir amar outro e não pode ser porque não foi isso que tu me ensinaste sobre o verbo amar!
-Oh meu filho, ela não te ama nem nunca te amou e se daqui a umas quantas semanas ela disser que já não ama o Rodrigo também nunca o terá amado a ele. Quem ama, ama para sempre. 

Matilde olhou o filho nos olhos e sentiu o seu coração de mãe doer, como haveria de explicar ao filho a banalização feita a tão grande palavra, a tão grande sentimento?

-Essa rapariga nunca teve ninguém que lhe explicasse, como eu te expliquei, o que quer dizer “amo-te”. 
-Mãe, eu pensei tantas vezes em dizer-lhe que também a amava… Mas não tinha a certeza se era amor, então permaneci calado. Ainda bem que nunca usei essa palavra, não quero que ninguém se sinta como eu me sinto agora, enganado e traído. Só a direi quando estiver certo que será para sempre. 
-Fazes muito bem, meu filho. É por isso que tenho tanto orgulho em ti. E sei que a mulher que ouvir o teu primeiro “amo-te” será a pessoa mais sortuda do mundo!
-Mãe? 

Eduardo limpou as lágrimas e chamou pela mãe.
-Sim, meu querido!?
-Eu amo-te, mãe!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Abraça-me

Abraça-me. 
Preciso do teu abraço para me sentir forte. 
Choro imensamente na solidão dos meus sentimentos. Motivos diversos. Motivos nulos. Não consigo controlar esta necessidade. 
Olha-me nos olhos e diz que em alguma parte do mundo existe alguém que gostará de mim tal como sou. Eu sei que é difícil, mas preciso de acreditar que é possível. Sei que estou repleta de complicações e que aturar-me será um sacrilégio para qualquer um que o tente fazer, mas eu necessito que haja quem seja capaz. 
Agora abraça-me e deixa que eu permaneça no teu abraço. 
Não sei se consegues ver como me sinto desolada. Consegues!? Então aperta-me nesse abraço e não me largues já. 
Quero perceber, no silêncio do teu olhar, que posso contar contigo. 
Neste momento, não sei onde estás nem quem és. Podes ser a pessoa que mais irei amar na vida, podes ser alguém que se foi embora e não volta, podes ser somente mais uma folha do meu diário inexistente, podes ser apenas o conforto das palavras. 
Não sei quem és, mas abraça-me, só desta vez.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Pensamento(s) do dia

Vou continuar a escrever. Vou continuar a escrever mesmo que seja a única leitora do que escrevo. Vou continuar a escrever mesmo que se queimem todos os livros do mundo. Vou continuar a escrever mesmo que o meu país continue sem valorizar a literatura. Vou continuar a escrever mesmo que nenhuma editora queira publicar os meus livros. Vou continuar a escrever porque, como disse Miguel Sousa Tavares, escrever é o melhor que posso fazer em troca de estar viva. 
Enquanto estiver viva, hei-de escrever. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Entrevista a André Vilar, autor de "Escrita Incerta"

Escrita Incerta - Capa
Com 18 anos publicou o seu primeiro livro – Escrita Incerta – uma coletânea poética. 

André, o que te levou, em primeiro lugar, a escrever poesia? 
Poesia sempre foi algo que gostei de escrever, inicialmente pelo gosto de "brincar" com as palavras e com a rima e mais tarde pela mensagem e poder que a poesia tem. Ao contrário de grande parte das pessoas da minha geração, gosto de analisar cada poema e de me colocar no papel do autor no momento em que escrevia.

E, depois, o que te levou a querer publicar os teus poemas? 
Sobretudo, a vontade de partilhar com o grande público tudo quanto escrevia e, embora tenha um espírito demasiado crítico do meu trabalho, tinha interesse de saber o que esse mesmo público achava.
Não posso, de todo, esquecer-me do papel fundamental que tu e o Tiago tiveram no que diz respeito ao incentivo.

“É tudo tão enigmático e incerto/ Para este ser prematuro”, tu és esse ser prematuro?
Soa-me a familiar...sim, sou eu esse ser prematuro, talvez pela pouca experiência e tenra idade ou então por não saber qual vai ser a minha realidade, o meu futuro, por viver numa incerteza, como todos os homens em alguma parte da sua vida

Escreves sobre diferentes temáticas. Alguma em especial sobre a qual gostes de escrever? 
Gosto de escrever sobre o momento, raramente escrevo sobre o que sinto, e quando o faço uso (e abuso) da imaginação, do irreal. Acho a sociedade e as pessoas tão interessantes que se escrevesse sobre o que sinto, tornava a minha escrita bastante desinteressante.

Consideras-te, como dizes num poema, “Um jovem frágil”?
Quando surgem as fragilidades assumo-as como tal e, mais uma vez, por pouca experiência, vou abaixo e "é inevitável não chorar"... Nunca me sinto derrotado e por muito que a realidade seja crua e dura, acredito que o ir abaixo é a mais eficaz forma de nos erguermos.

Podemos, no teu livro, encontrar algumas críticas a Portugal. Falas de crise, injustiça, emigração, democracia. E dizes que o país está mal. Porque é que achas que Portugal está mal? 
Não critico Portugal, critico todos aqueles que, de alguma forma, contribuíram para que o país esteja mal. Hoje em dia, ouvimos, frequentemente, falar de austeridade, emigração e crise, no entanto, acredito que nos devemos guiar por valores como o respeito e a dignidade.

Escrita Incerta, porquê este título? 
O Autor, André Vilar
Escrita Incerta pelo tema incerto e pela sua diversidade. O nome do livro surgiu através daquele que foi o meu primeiro blog, onde escrevia em vários registos, num tema sempre incerto. Não pré definido, sobre tudo aquilo que me interessa, ou me suscita interesse, desde a política à arte.

Quais são os teus planos para o futuro, as tuas ambições? 
Não acredito num futuro pré definido, normalmente designado por destino. Acredito, sim, num futuro construído à medida de cada um. Ambições tenho bastantes, ambiciono um futuro ligado à comunicação, à cultura e a Arouca. Nunca esquecendo o teatro, encenação e direção de atores que mais recentemente me tem suscitado particular interesse.

Pretendes publicar outras obras, por exemplo, noutros registos? 
Gosto de escrever noutros registos, no entanto não me imagino a publicar um romance, por exemplo. Embora espere que o meu próximo projeto seja uma co-produção, ambiciono ver-me num projeto a solo de poesia ou de crónicas.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

"Amor de Mãe Não Tem Número" - Conversa com a autora, Liliana Fernandes

A temática abordada é algo não muito comum na literatura infantil. 
Liliana Fernandes publicou um livro infantil que fala de questões relacionadas com a adoção por parte de casais homossexuais. 


1. “Amor de Mãe Não Tem Número” é o seu primeiro trabalho enquanto escritora? 
É sim o meu primeiro trabalho oficial/publicado. Embora já tivesse feito alguns rascunhos de outras obras.

2. O que surgiu primeiro: a ideia de escrever um livro para crianças ou a ideia de escrever sobre a adoção homossexual? Ou as duas em simultâneo? 
Foi a ideia de escrever o livro para crianças, porque esta ideia surgiu de uma "necessidade" ... Quem me conhece sabe que adoro e gasto muito tempo em passatempos e foi num desses passatempos que me surgiu o desafio de escrever um livro infantil (coisa que nunca tinha considerado, por ser extremamente complexo escrever para crianças, acreditem!). Não sendo uma pessoa que goste de "escrever por escrever" queria uma mensagem que tocasse num ponto que, para mim, é fundamental e deve ser visto de diferente forma na nossa sociedade.

3. Foi difícil escrever este livro? 
Foi complicado, mas mais fácil do que idealizava. Quem escreve para crianças deve estar ciente de alguns pontos:
- É preciso usar palavras adequadas ao seu nível cognitivo (mas não ser demasiado básico, na minha opinião... torna-se, em parte, estimulante a nível linguístico)
- Nunca sabemos que sentido poderão dar a uma frase;
- Temos de captar a sua atenção em "cada palavra";
- Temos de lhes ensinar algo;
- Não devemos dar enfoque a questões negativas que surjam na história;
Isto de escrever para crianças não é pera doce…

4. Este livro é 100% fruto da sua imaginação enquanto escritora ou é inspirado em algum caso da realidade? 
A história é 100% fruto da minha imaginação com fundamento nalguma pesquisa e conhecimentos sobre situações idênticas que possuo. Também como inspiração tenho junto de mim pessoas que, sendo homossexuais, me dão certezas da sua capacidade para um dia criarem e amarem uma criança, num ambiente que lhes é favorável ao desenvolvimento.

5. Este livro contem uma mensagem para os adultos do futuro. Essa também pode ser uma mensagem para os adultos do presente? 
Completamente! Tenho dito e continuarei a dizer: tenho a certeza que todos os pais irão ler este livro antes de o entregar nas mãos de uma criança e, ainda assim, decidirão fazê-lo. E, na verdade, espero que assim seja para que a mensagem chegue, de facto, aos adultos do presente. 

6. Porém, adoção homoparental é um tema que tem sido muito discutido e continua a ser reprovado por muita gente. Será que todos os pais irão mesmo permitir que os seus filhos leiam este livro? Não teme que algumas famílias não o aprovem? 
Eu não temo partilhar a minha opinião. Cada um tem a sua, na sua liberdade plena de a ter. Não imponho a minha opinião a ninguém e espero a mesma atitude dos outros. Nem todos os pais permitirão. Da mesma forma que uns estimulam os filhos a dizer "obrigada/o" e outros não dão importância ao agradecimento... São modos de educar. O que espero, sinceramente, é que as pessoas compreendam a necessidade de se educar no amor e respeito pelo outro.

7. Que críticas têm sido feitas ao livro? Tanto por crianças como por adultos…
Ao contrário do que esperava inicialmente, a aceitação tem sido enorme! Tanto adultos (de uma faixa etária abrangente, até aos 70's) como crianças, me têm dado um feedback positivo. Mais os adultos, porque as crianças, essas, não veem sequer problema na situação descrita… são simples...

8. Para terminar, onde é possível adquirir o livro?
O livro pode ser adquirido junto de mim, nos momentos de apresentação/promoção, que podem ser acompanhados na minha página;
Online, nos sites:
E brevemente nas livrarias que anunciarei…

domingo, 5 de julho de 2015

Carlota

Meu amor, 
Desculpa não ter ficado para o teu casamento. 
Desculpa por não te ter levado à escola no primeiro dia de aulas.
Desculpa por não ter estado por cá para te dar os conselhos que a tua adolescência exigiu. 
Desculpa por não ter podido cumprir o meu papel de mãe…
Quando leres isto, já terei partido há muito tempo.
Vi-te nos meus sonhos futuristas e eras linda. Quem me dera estar aí para te dar um abraço!
Quando soube que ia morrer em breve, foste a primeira pessoa em quem pensei. Espero que me perdoes por ter estado ausente em quase toda a tua vida. Lembrar-te-ás de mim!?
Estou certa de que o teu pai cumpriu na perfeição o seu papel e até parte do meu. Foi assim, não foi? Eu sei que foi… 
O teu pai foi, sem dúvida, o grande amor da minha vida. Nunca amei mais ninguém. Quando o conheci, percebi que tinha andado enganada a pensar que sabia o que era o amor, mas, na verdade, só o soube a sério quando me apaixonei pelo teu pai. 
És fruto do mais sublime amor, um fruto muito desejado. Eu e o teu pai amamos-te mais do que tudo! 
Infelizmente, eu não pude ficar para te dizer tudo isto, olhos nos olhos, mas sei que ele o fez por mim. Assim como também sei que te terá entregado esta carta, exatamente hoje, no dia em que subirás ao altar. 
Peço-te que peças desculpa aos meus netos por não os poder levar ao parque nem dar longos passeios na praia e comer gelados na esplanada. Por não poder ficar com eles todos os sábados à noite em que irás sair com o teu marido. Por falar nele, espero que te trate tão bem como o teu pai me tratou sempre. 
Escrevo-te do passado para o futuro, com a sensação de presente. Imagino-te vestida de branco e braço dado ao teu pai a desfilar pela igreja. Vejo toda a família a sorrir-te e a dizer-te o quão linda és. Desculpa por não ter ficado para as fotografias…
Tive que sair mais cedo. O meu corpo assim o exigiu. Pela minha alma teria ficado, mas o corpo foi soberano e eu não resisti.
Quero que saibas que te amo do fundo do coração e vou sempre amar mesmo estando fisicamente ausente. 
Beijinhos da tua mãe que teve que ir embora mais cedo. 
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-Carlota!! Eu sei que as noivas chegam sempre atrasadas, mas por este andar ele pensa que desististe. Despacha-te!
Limpei as lágrimas, a maquilhagem tinha saído, mas não me importei. A minha mãe diria que eu estava linda assim. Dobrei a carta e guardei-a na minha mesinha de cabeceira. Depois do casamento, viria busca-la e levá-la para a minha nova casa. Dei o braço ao meu pai e fui. Quem me dera que Deus me desse tréguas e, pelo menos hoje, a minha mãe pudesse estar comigo…

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Madalena

Bruno era um jovem um pouco diferente dos seus colegas de turma. Enquanto que todos eram loucos por correr atrás de uma bola, Bruno tinha uma outra paixão que não o futebol. Uma bicicleta era o único objeto capaz de o fazer sorrir nos seus dias menos bons. Sempre que estava mal, saltava para cima dela e pedalava com toda a força. Por vezes, acabava no chão e com o joelho ou o cotovelo a sangrar, mas nada o fazia sentir-se tão feliz como andar de bicicleta.
Naquela tarde de primavera, tinha recebido uma nota, que considerava péssima, no teste de Português, como estava no 12º ano e queria muito entrar para a universidade e sabia que precisava de alcançar uma boa média, isso deixou-o assaz irritado. Lá foi ele encavalitar-se na sua melhor amiga e descarregar a sua frustração.
Pedalou a toda a força sem parar, e ao final do dia, quando se preparava para regressar a casa, deparou-se com uma jovem, sentada num banco de jardim, com a sublime face coberta de lágrimas, pondo em prática as suas melhores aptidões de amigo, Bruno salta da bicicleta e aproxima-se dela, tentando perceber o que se passava.
- Está tudo bem? - pergunta-lhe, mostrando-se preocupado.
A jovem arregala um pouco os olhos e, limpando as lágrimas, confessa:
- A minha melhor amiga traíu-me.
- Com o teu namorado? - interroga Bruno.
- Não, não tenho namorado. Traiu-me, pois descobri que contava todos os meus segredos à sua outra melhor amiga, com quem eu não tenho a melhor relação...
Bruno, que nunca suportara a traição, tentou a todo o custo animar a rapariga e fazê-la sentir-se melhor (...)
E o tempo avançou, Bruno e Madalena tornaram-se amigos, melhores amigos e a paixão surgiu, seguida do amor.
Ambos seguiram os estudos, ele em medicina, ela em comunicação social. Porém, continuavam amigos, nenhum tivera, ainda, coragem de expôr ao outro os seus sentimentos, a cumplicidade que os ligava era inegável, no entanto, o receio de um amor não correspondido pairava tanto sobre um como sobre o outro. 
Esse receio aumentou ainda mais logo no primeiro ano de faculdade quando Leandro, um colega de curso de Madalena, lhe confessou que a amava, deixando-a perplexa. Bruno foi imediatamente assombrado pelo possível amor de Madalena e Leandro. O seu coração mandava-o confessar, de uma vez por todas, o que sentia a Madalena, mas a sua cabeça dizia-lhe que era uma péssima ideia, uma vez que já o devia ter feito antes, se o fizesse agora que Madalena tinha um pretendente, esta jamais acreditaria nas suas palavras.
Sentiu-se num beco sem saída, por isso, foi à garagem buscar a bicicleta e pedalar o dia inteiro, apenas com uma única refeição. Estava nervoso, confuso, sentia em si um misto de emoções que nem ele sabia ao certo caraterizar. Contudo, com o passar tempo, Bruno acabou por se afastar de Madalena, fazendo-a pensar que, afinal, nem a amizade que tinham era verdadeira. E foi num momento de carência que Madalena aceitou o pedido de namoro de Leandro.
Foi aí que Bruno e Madalena perceberam que os seus destinos não estavam tão cruzados tanto quanto o que pensavam, deixaram de se falar por completo, embora todas as noites adormecessem um a pensar no outro, nenhum era suficientemente corajoso para ir falar com o outro e tentar recuperar a amizade. Bruno pensava que Madalena não o procurava porque apenas queria saber de Leandro e Madalena pensava que Bruno se fartara dela. Mesmo a namorar com Leandro, Madalena tinha noção que não era por ele que o seu coração batia, simplesmente não era capaz de terminar com ele, não o queria magoar, sabia que nao estava a ser correta, mas não era capaz de recuar nas suas decisões. Orgulhosa? Talvez, sim, talvez o estivesse a ser, e muito!
Madalena sentia-se egocêntrica por estar a enganar Leandro, mas logo perdeu essa sensação quando este a traiu com Ângela, uma amiga de curso de Madalena. Bem, na realidade Madalena não se sentiu assim tão traída quanto isso, pois também ela não amava de verdade Leandro, aliás, isto apenas ajudou Madalena a terminar a relação, sem se sentir culpada.
Assim que se livrou de Leandro e Ângela, a primeira coisa em que Madalena pensou foi em falar com Bruno, tal como quando Bruno soube de tudo isto pensou em falar com Madalena. Desta vez, Madalena cedeu e ligou a Bruno, pedindo-lhe para marcar um encontro. Nesse encontro, ambos confessaram, finalmente, o que sentiam um pelo outro e perceberam que foram uns grandes parvos por terem escondido isso durante mais de um ano, pois desperdiçaram imensos momentos de felicidade!
Naturalmente que começaram a namorar e viveram grandes momentos juntos. De facto, o que os ligava era amor, sem qualquer dúvida, embora tivessem deixado que o tempo lhes roubasse bons momentos, agora que os tinham, aproveitá-los-iam de todas as formas. Ou deviam tê-lo feito. (...)
E se hoje escrevo tudo isto é porque tive necessidade de partilhar com alguém a minha história, tanto que fiz o Bruno pedalar, que ele acabou por pedalar para fora da minha vida! Hoje sei que assim que percebi que gostava dele lhe devia ter dito, sei que nunca devia ter namorado com o Leandro, nunca me devia ter dado bem com a Ângela, sei que não devia ter discutido com o Bruno naquele dia. Já se passaram trinta anos desde o dia do acidente e ainda penso nele. Sinto-me culpada por o ter feito pedalar daquela maneira furiosa que o matou.
Conto-vos isto para que não cometeis o mesmo erro, não escondam os vossos sentimentos, libertem-se, só assim podereis alcançar a felicidade perpétua. Eu errei apenas uma vez na minha vida, e com esse erro destruí toda a minha felicidade. Sem o Bruno aqui, não sou ninguém, não passo de uma concha vazia esquecida pelo mar, vivo apenas esperando que a morte me leve para junto da única pessoa que amei em toda a minha vida!