sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"Gosto de escrever todos os dias" - Ana Ribeiro

Ana Ribeiro é natural de Chaves, Vila Real e tem 28 anos. Em 2015, publicou, pela Editora Capital Books, o seu primeiro livro, intitulado "Um Amor Inexplicável". Licenciada em Análises Clínicas E Saúde Pública, esta jovem autora sonha viver da escrita e, quem sabe, escrever com José Luís Peixoto, uma das suas inspirações literárias. 
 1- A escrita sempre te acompanhou ao longo da vida? 
Sim. Descobri a paixão pela escrita no início da adolescência com a escrita de vários diários e com a participação em desafios simples que surgiam na revista que recebia em casa do Clube Caminho Fantástico da Editorial Caminho. Mas foi já na faculdade – em 2009 – que comecei a levar a escrita mesmo a sério e a perceber aquilo que gostava realmente de fazer e o que queria fazer o resto da vida: escrever. Ser escritora. Comecei a escrever poemas, a publicá-los num blogue que tinha e a mostrá-los a um amigo meu que foi quem me deu a ideia para a publicação do primeiro livro. Desde essa altura que nunca mais larguei a escrita, gosto de escrever todos os dias.


2-De onde brotou a ideia de escrever o teu primeiro livro - Um Amor Inexplicável? 
A ideia surgiu pelo facto de ter visto vários filmes e lido alguns livros que abordavam o tema do cancro em jovens e também há já algum tempo que me questionava sobre como é que um jovem lida com uma inesperada paixão por alguém que sofre de uma doença deste género. Queria muito trazer essa questão para um livro porque não é uma questão fácil de aceitar. 

3-Estás licenciada na área da saúde, como conjugas saúde e literatura? 
Neste momento, não estou a exercer na área da saúde, infelizmente. A situação que vivemos em Portugal e o desemprego jovem, não tem facilitado; por isso, o tempo livre que tenho é ocupado com a escrita. 

4-Já pensaste em dedicar-te a uma carreira de escritora a tempo inteiro? 
É um dos meus maiores sonhos, e é um dos grandes desafios a que me irei propor até ao fim da vida porque a escrita é mesmo aquilo que mais gosto de fazer; no entanto, sei que é um caminho sinuoso e longo porque em Portugal não é fácil viver exclusivamente da escrita. Há cada vez mais autores e o mercado é pequeno para todos, nem todos conseguem vingar e ter os apoios que precisam, para poderem mostrar o seu trabalho e serem valorizados.

5-O teu segundo livro já está a ser escrito, o que podes revelar sobre ele? 
O meu próximo livro já está pronto a ser publicado, estava previsto sair este ano, mas decidi dedicar o presente ano ao livro anterior para poder fazer mais alguma divulgação e levá-lo às escolas. É importante falar da doença oncológica no cerne da comunidade escolar; muitas vezes, quando surge um aluno com cancro, a comunidade escolar não sabe muito bem como lidar com a situação. Por isso, espero que o meu livro possa ajudar nesse sentido. Sobre o próximo livro posso adiantar que se chamará “Ao teu lado” e vai levar os meus leitores numa viagem pela forma como as diferenças entre duas pessoas podem interferir nas relações que estabelecemos com os outros. Vai ser um livro diferente do anterior, centrado numa história de amor e amizade de duas personagens que também estão presentes no livro anterior. Quero mostrar aos meus leitores a história especial que une essas duas personagens.

6-Achas que os novos autores da tua geração estão a ter visibilidade suficiente? 
Gostaria de dizer que sim; mas aquilo que sinto é que isso ainda não acontece como gostaríamos e merecemos. Apesar do enorme esforço das novas editoras que têm surgido, empenhadas em lançar novos autores no mercado, o mercado livreiro não nos dá o apoio que precisamos, não apostam muito nas nossas obras, sinto que, de certa forma, as grandes empresas livreiras dão mais valor aos autores que já têm uma carreira consolidada e que sabem à partida que eles vão vender muitos livros. Muitas vezes o que lhes interessa é o lucro.

7-Escreves regularmente no teu blogue. A escrita completa-te como mulher e como pessoa? 
Plenamente. A escrita mudou-me muito como pessoa, permitiu-me perder uma boa parte da minha timidez, ganhei autoestima e mais confiança. Ajuda-me nos momentos de mais stress e ansiedade. É parte de mim, do que sou, da minha personalidade e identidade.
Acho que já não sabia viver sem a escrita e sem escrever todos os dias.

8-Quais são os teus maiores sonhos, dentro e fora da área da literatura? 
Dentro da literatura: sonho com o dia em que conseguirei viver só da escrita; sonho ter oportunidade de escrever um livro com o José Luís Peixoto – que é um dos meus autores de eleição. Sonho, conseguir ser reconhecida pelo meu trabalho.
Fora da literatura: sonho com o dia em que o país em vivemos consiga dar mais valor aos jovens e que a era do trabalho precário termine para que possamos seguir o sonho de exercer na área dos nossos cursos, sem sermos mal pagos e escravos das entidades empregadoras. É uma das coisas que mais me revolta, lutamos tanto para tirar um curso superior que depois vai perdendo viabilidade. Sonho poder exercer na área do meu curso, conjugar a saúde com a literatura. Sonho um dia viajar até Nova Iorque, é uma cidade que adorava conhecer.

9-Imaginas-te a escrever e publicar algo que não seja um romance? 
Sim. Tenho algumas ideias, apesar do género romance ser o meu preferido. 

10-Acreditas que a literatura possa mudar o mundo?
Claro que sim. Apesar de achar que as pessoas lêem cada vez menos, penso que a literatura tem um impacto muito forte sobre as pessoas e por consequência a longo prazo poderá mudar o mundo. Assim o espero.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Fim

Engoles uma reflexão e respingas:
- Eu não vou chorar. Eu não choro. 
No fundo, não queres pensar, apenas desfrutar. 
Sabes que, um dia, tudo irá acabar e é provável que a tua vida volte a deixar de fazer sentido. Por agora, está tudo bem, demasiadamente bem, melhor do que nos teus maiores sonhos. 
Temes mais do que tudo o dia do fim. A cada dia que passa, sabes que ele se aproxima e queres fugir para o passado, voltar ao primeiro dia em que te sentiste assim, ou simplesmente fazer parar todos os relógios do mundo. Sabes que há momentos que poderiam durar para sempre e que esse é um desses momentos.
Agora, no conforto das paredes do teu quarto, as lágrimas soltam-se, uma após outra. O teu tempo está a acabar, sabes que tens que dar lugar a outra pessoa. Isso dói e reconforta ao mesmo tempo. 
Pensas: Porquê eu? Porquê isto na minha vida? Será que mereci? Será que aproveitei a 100%? Terei desperdiçado alguma parte? 
Pensas: Porquê um fim? Porquê este turbilhão de emoções? Porquê estas lágrimas? Alegria, medo, saudade, tristeza, nostalgia? 
Pensas: Quero viver intensamente como se não houvesse amanhã!
Pensas: A vida é tão curta...
Pensas: Porque fiz uma pausa no relógio da vida para escrever isto? 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Não se amam as ausências

-Amo-te 
Silêncio. 
-Entendes o que quero dizer? 
Indagações mentais. 
-Amo-te, neste momento. 
Agora percebes. 
O amor floresce em cada momento. Não é o mesmo amor que nos acompanha em vários momentos. Amamos no momento. Passado o momento não amamos mais, a não ser as memórias que ficaram desse momento. 
-Amo-te, neste momento 
Neste momento em que me deixo envolver pelo calor dos teus braços e em que te beijo apaixonadamente. 
-Amo-te 
Amanhã já não te vou amar. Daqui a uma hora já não te hei de amar se já não estiveres comigo. Não podemos amar ausências. Não amamos as pessoas quando elas não estão connosco. Amamos cara a cara. Não amamos as pessoas pelas mensagens que nos enviam, amamos o sorriso que permitem o nosso rosto estampar, a sensação de felicidade que provocam em nós.
-Amo-te tanto! 
Amamos intensamente, com toda a força, com toda a dedicação, porque o amor nunca esgota, e quanto mais se exercita mais se tem. Amamos no momento. Depois do momento, só amamos as memórias. E só amamos as memórias quando nos lembramos delas. Não amamos todas as memórias ao mesmo tempo porque não pensamos em todas ao mesmo tempo. Amamos e desamamos conforme o contexto. 
Amamos porque somos humanos e temos esta capacidade única de amar. 
Temos, porém, que perceber que o amor não é como nos ensinaram os contos de fadas. O amor não é um "para sempre", o amor é momentâneo por mais reles que possa soar esta afirmação. 
Não nos sentimos sempre da mesma forma. Por vezes, sentimo-nos felizes, noutras vezes, sentimo-nos tristes. Nenhuma felicidade dura sempre, nenhuma tristeza é eterna, o mesmo acontece com o amor. Sentimo-nos amantes durante alguns momentos. Noutros momentos, existirão outras sensações para saborear. Por vezes, misturamos algumas. Tudo bem. Um misto de sentimentos nunca matou ninguém (penso eu). 
-Amo-te, ok? 
A única opção é assentir. O amor dá-se e recebe-se. No momento. 
Desilusões amorosas não são, contudo, mitos. Existem. Quando nos focamos demasiado no amor que sentimos pelas memórias que alguém nos deixou, quando criamos ilusões, quando nos mentem. 
-Vou amar-te para sempre - isto nunca se diz!! 
-Amo-te - quando te disserem isto, lembra-te: é no momento, não é para sempre!, não te comeces já a iludir. 
Pronto. Assim ninguém se ilude. Amamos no momento. Depois do momento, é seguir em frente. Temos recordações, vamos amá-las de vez em quando até que fiquem calcadas por novas recordações, novos momentos em que amamos.
Amar não pressupõe qualquer compromisso. Portanto, podemos amar assim. Só não temos que enganar ninguém. E ninguém tem que se iludir. 
Um amo-te é dito no presente. Passado uma hora, esse presente já é passado. 
-Amo-te 
-Amo-te 
Amemos em cada momento. Amemos com todo o coração, com todo o amor, sem pensar, sem reclamar. 
Mas amemos as pessoas e paremos de amar as memórias. 
Agarramo-nos às memórias do passado e ficamos cegos para o presente. 
Amar é um verbo que só se deve conjugar no presente. 
-Amo-te 
Jamais 
-Amei-te 
Nunca
-Amar-te-ei.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Escreve-me. Ou lê-me.

És a peça em falta. Tu que eu não sei quem és. Tu que estás algures fora ainda da minha vida. Tu que eu procuro incessantemente em noites de insónias. Tu de quem eu sinto a falta nos meus momentos de nostalgia profunda (é de ti, certamente). Tu que me deixas vulnerável com a tua ausência. Tu. Apenas tu. 
Por onde andas, mesmo? Vais contar-me quando cá chegares, não vais? Eu vou querer saber. Vou indagar!, prepara-te. 
Não te peço muito. Apenas que me ames e me deixes amar-te. Apenas que me completes.
És capaz? Serás? 

Escreve-me. Ou lê-me. 
Não imaginas como me apaixono facilmente por palavras. Os gestos são bonitos, encantam. Mas as palavras apaixonam. A delicadeza de uma frase pode superar a de um braço ou a de um beijo.
Se não te deres bem com a escrita, então, lê-me. Até porque posso escrever para ti. Queres? Eu iria gostar muito, tenho a certeza. 
Não é pedir muito pedir que me escrevas ou que me leias, pois não? Não pode ser. Aliás, até faculto duas opções. Ou me escreves. Ou me lês. Podes escolher. 
Já te escrevo e ainda não me lês. Mas um dia vais ler. Se não leres, vais escrever-me. É para ti que escrevo, para ti que hás de ler, a menos que me escrevas. 
Podes ler-me no silêncio das minhas palavras, por vezes. Podes ler-me na calmaria do meu olhar, ou na sua confusão, será conforme. Podes ler-me das minhas atitudes de amante. Podes, se quiseres, ler-me nos meus sonhos, nos meus medos.
Acredito que escrever-me seja uma tarefa mais penosa. Afinal de contas, sou extremamente crítica e poucos autores me agradam.
Vou escrever-te com toda a minha inspiração. E tu vais ler-me. E eu vou ficar grata e feliz por isso. Oxalá tu também fiques (feliz).

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

"Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos" - Patrícia Rebelo

Patrícia Rebelo é autora do livro "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro"  - um relato sentido de uma jovem que perdeu dois anos de memórias, tendo que enfrentar uma vida da qual não se recorda. 
A autora com o seu livro
A escrita é, para ti, um refúgio ou vai além disso? 
A escrita, para mim, é um refúgio. É o tentar expressar os meus sentimentos, é o tentar resolver os meus problemas e conseguir encontrar alguma resposta para eles, mesmo que tenha que ser eu a dar essa resposta.

"Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" - porquê este título? 
Porque foi, efetivamente, isso que o Diogo me disse. Este livro é muito acerca do Diogo, que é o rapaz com quem eu namorei, e é muito direcionado a ele, quer eu queira quer não. Eu andei muito às voltas com o título, a certa altura não sabia que título colocar. Mas, um dia, escrevi um texto que se chamava "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" e foi do género: É este!

Sentes que deste demasiada importância ao Diogo? 
Sim. Mas toda a gente dá demasiada importância ao primeiro amor, portanto...

"Cartas À Tua Ausência" era, inicialmente, o nome da tua página no facebook. Que tipo de conversas podemos ter com a ausência?
Várias. Eu com a ausência do Diogo tive bastantes. As primeiras foram conversas de raiva do género: porque é que ele estava ausente? porque é que ele não dava um passo para estar presente? Depois foi deprimir por causa dessa mesma ausência. Há muitos textos em que tu deprimes e consegues criar ali qualquer coisa. E, efetivamente, depois é o bater a porta e: "ok, minha amiga, vamos ter uma conversa a sério por tudo aquilo que eu passei", e resolver o assunto. 

Escrever sobre sentimentos é um ato de coragem ou desespero? 
Nem uma coisa nem outra. Há pessoas que me disseram que era de coragem por expor os meus sentimentos. Outras pessoas disseram-me que seria um bocadinho de desespero. Eu não acho que seja nenhum dos dois. Eu acho que cada pessoa arranja uma forma para se conseguir resolver, naquele momento aquela foi a minha forma. Portanto, foi uma forma de resolução.

Acreditas no amor? Sentes-te capaz de voltar a amar? 
Sim. Até aqui não conseguia porque tinha sempre o Se. Se fosse com o Diogo, se resultasse... Neste momento, isso já não acontece. No entanto, o rapaz que vier agora vai ter que provar muita coisa. Não chega dizer: "olha eu gosto muito de ti, vai ser para sempre" porque isso já não pega. 

Se pudesses voltar atrás e escolher, evitarias a perda da memória ou sentes que aquilo que acabaste por ganhar com isso superou dois anos de memórias esquecidas?
Isso é uma pergunta complicada! A perda de memória não foi algo que eu escolhi. Antes da perda da memória sei que tomei decisões minhas das quais estava muito segura. Se calhar, se não tivesse perdido a memória ainda estaria com o Filipe, todos diziam que tínhamos um namoro firme. Mas se calhar também não tinha dado origem ao livro, não me tinha descoberto na escrita, que tinha sido uma coisa que eu tinha deixado um bocadinho para o lado. No meio disto tudo, já aprendi a lidar com a perda da memória.

É difícil, para ti, imaginar como é que seria se não tivesses perdido a memória?
Sim. Sim até porque para isso teria que colocar o Filipe e uma data de situações que para mim não existiram e existem só porque as pessoas me dizem que existiram, mas aquilo que eu fiz quando perdi a memoria foi voltar ao Diogo, que era aquilo que eu conhecia. Por isso, se não perdesse a memória não sei o que havia ali, portanto, não faz sentido ponderar sobre isso. 

"Como sobrevivemos quando já não nos lembramos de quem somos?"
Não sobrevivemos. Este livro é a prova disso. Tenho um capítulo, que é o 56, que fala exatamente da perda da memória e mostra que não conseguimos sobreviver, vamos lidando com isso, reconstruindo a nossa vida. Mas não sabemos o que há ali para aprender. Por exemplo, não vejo a minha vida agora a fazer planos, também não acho que seja uma questão de sobrevivência, mas uma questão de defesa. Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos, há uma parte que não é nossa, há uma vida que não é nossa e toda a gente diz que é. Termos que lidar com isso é desesperante e não conseguimos viver nem sobreviver com isso. Quando conseguimos encaixar isso e chegamos ao ponto de "ok, de facto temos que lidar com isto porque isto aconteceu, eu perdi a memória, há uma vida de que não me lembro, vamos encaixar isso" é muito complicado. Eu olhava para as fotografias e não achava que era eu, não me lembrava. Por isso, não se sobrevive. É apenas um dia de cada vez. Este livro mostra isso. Acabamos por não fazer planos e o futuro é um dia de cada vez. Vamos vivendo.
Cátia Cardoso Entrevista Patrícia Rebelo

Não perdoo os contos infantis!

Nunca vou perdoar o mundo, a sociedade, as pessoas, pela forma como me iludiram. 
Dizem que a adolescência é a fase das questões. Quem somos? O que é a vida? O que queremos ser? Etecéteras. Etecéteras. Questões mais profundas que nos levam para reflexões, desilusões. 
Porquê? Porque a infância é a fase em que nos iludem de todas as formas e feitios. 
Há algum conto infantil que tenha um final triste? Não. Porquê se na vida o que mais há em falta são finais felizes? Qual é a necessidade que há em que se iludam as crianças? Está bem que é bonito olhar para trás e recordarmos a infância como a fase mais feliz da nossa vida. Acontece que, quanto mais feliz é a infância, quanto mais iludidos somos, mais desilusões teremos, depois, que enfrentar. Mais sofreremos no futuro. Porque é que iludem tanto as crianças? 
Nunca escrevi para crianças. E muitas vezes já mo pediram. Ainda não o fiz, porque não sei como o fazer. Não quero iludi-las com contos de fadas que terminam com um "viveram felizes para sempre." De onde vem esta expressão? Dos contos infantis! Sim, é tudo muito lindo e mesmo em adultos todos adoram recordar estes contos. Mas vocês acreditam em finais felizes? Ou a vida mostrou-vos que estes são apenas utopia? A vida não vos provou o quão utópicos são os contos da vossa infância? Gostastes, pois, de enfrentar a realidade tal como ela é, com todas as suas consequências e dores? Não me parece... 
Claro que é díficil explicar a uma criança que a vida não é como sempre queremos. Mas dizer-lhes constantemente que tudo é maravilhoso não é o mais correto. Deve, sim, explicar-se-lhes, aos poucos, num processo gradual, que nem sempre as coisas acontecem como queremos. Às vezes sim, mas outras vezes não. Para conseguirmos aquilo que queremos temos que lutar muito e, por vezes, uma grande luta não é suficiente. 
Podemos ser felizes. Mas não completamente felizes. Haverá sempre algo em falta. Não se pode ter tudo. Por vezes, temos que fazer opções. Abdicar de umas coisas em prol de outras. 
Se isto fosse explicado às crianças, que progressivamente entenderiam, haveria, na sociedade, menos jovens deprimidos e desiludidos com a vida. 

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Que dezembro é este!?

Estamos em dezembro e eu estou triste: não há chuva. 
Tenho saudades dos dias chuvosos, de sair de casa acompanhada pelo meu guarda-chuva e de voltar, à noitinha, semi-encharcada. 
Este ano está a ser muito diferente. É dezembro e não há chuva, nem neve...! Os dias têm sido solarengos e eu não estou a gostar. Porque é que está tudo tão desorganizado? Não chove este inverno? 
Está tudo a perder a piada, assim. 
E eu estou entediada. Quero chuva. Onde posso pedir o livro de reclamações para expressar o meu desagrado perante a sua ausência? 
O outono está perto do fim e tem sido um outono excessivamente seco... Bonito, como todos os outonos, mas muito deprimente. 
Está tudo tão estranho. 
2015 está a ser estranho. Este outono está a ser estranho. E dezembro, está-se mesmo a ver, vai ser estranho. 
Estranho é diferente. Mas este não é um diferente positivo. Nenhum diferente o é. Diferente não é algo que possa caraterizar-se como negativo ou positivo. Simplesmente, estranho é um diferente mais negativo do que positivo. 
E este dezembro, este outono, este ano estão a ser muito estranhos.