quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Filipe Vieira Branco - Escritor (e) voluntário

Filipe Vieira Branco é mais um jovem escritor. Distingue-o o seu altruísmo, a sua vontade de ajudar as pessoas que vivem no mesmo mundo que ele. Publicou o primeiro volume de uma sequela, está a preparar um livro autobiográfico e, enquanto vive em Itália, onde se encontra num projeto de voluntariado, lançou um projeto que visa ajudar uma instituição da sua terra.  

Publicar um livro sempre foi um sonho, para ti?
Sim, sempre. Pelo menos desde que me lembro de ter gosto em escrever.

Com que se podem deparar os leitores de "O Dia Em Que Nasci" ?
Com uma história em que criei um género de distopia, acompanhando a aventura de um jovem que parte à descoberta de um mundo que desconhecia por completo. Podem deparar-se também com algum mistério e com algumas questões que quis levantar sobre a forma como estamos a viver atualmente.
O autor com os pais e o seu livro
Escreves por gosto ou para te libertares, descarregares frustrações?
Por gosto, primeiro. Mas a escrita para mim é sempre uma forma de descarregar sentimentos, sejam eles frustrações ou não. É também por isso que há muitos textos meus que ninguém irá ler. Às vezes são também como exercícios que faço só para mim.

Além da escrita, fazes voluntariado. Em que sentido isso te completa como pessoa?
Quando se é voluntário, aprende-se a ver o mundo de outra perspectiva. Cruzamo-nos com diversas realidades. Tudo muda. E é difícil explicar isto, mas acredito que começamos a dar mais valor às pequenas coisas que temos. Isso completa muito o meu ser. Preciso de sentir isso para viver. E já nem conseguiria viver sem estar ligado a algum projecto de voluntariado.

Achas que o mundo seria um lugar melhor se as pessoas fossem mais altruístas?
Seria um lugar muito melhor. Não tenho qualquer dúvida. Faz falta, a algumas pessoas, saírem da sua bolha e entrarem por momentos nas realidades dos outros, mas entrar mesmo a sério. Participar, ajudar, experimentar. Se a sociedade no geral se baseasse mais em sentimentos destes, seríamos todos mais felizes. O egoísmo nunca foi positivo para ninguém.
Neste momento, estás em Itália, num projeto de voluntariado, na cidade de Forlí.  A cidade inspira-te e impele-te para a escrita ou o dever fala mais alto e não há grande tempo para escrever?
Não falo só da cidade onde vivo, porque felizmente tenho viajado bastante por outras cidades, mas sim... inspiram-me e muito. Tenho escrito bastante, embora gostasse de ter mais tempo para isso. E até tenho muito tempo livre, mas há sempre algo para fazer com outros voluntários. E por outro lado, tento não ficar demasiado abstraído da realidade que estou a viver neste projecto único (e que só se tem uma vez na vida!).

No dia 31 de janeiro, anunciaste um novo projeto - "O Elevador". Explica esse projeto.
No ano passado, estava a fazer uma apresentação pública do meu primeiro livro ("O Dia em que Nasci") e uma grande amiga minha levou até lá dois rapazes do Lar de Infância e Juventude de Torres Novas. Aí tive um contacto directo com esses dois jovens e foi algo que me marcou e emocionou de uma forma tremenda. Sei que as suas vidas, e dos outros rapazes do Lar, não são fáceis. Ou não eram, pois agora na instituição têm todo o tipo de apoio que se pode esperar para estas situações (alguns jovens vêm de contextos sociais muito complicados). Essa minha amiga é técnica de acção social e trabalha muitas vezes com eles, e daí foi surgindo uma ideia de ajudar o Lar de alguma forma. Entretanto vim embora para Itália mas não deixei a ideia de parte. Decidi portanto publicar o conto “O Elevador” com o valor de 1€ a reverter para o Lar dos Rapazes. Para além de ser uma história que fala sobre um mal que está a assolar a sociedade, a tal falta de altruísmo, achei que seria muito mais completa se fosse associada a uma causa maior como esta.

Tencionas ajudar pessoas com a tua escrita, não só monetariamente, mas também através do conteúdo das tuas palavras? Qual é o teu maior objetivo quando escreves?
Sim. Esse é um dos meus objectivos, conseguir fazer com que alguém, através da minha escrita, consiga processar os seus próprios sentimentos, as suas dúvidas. Depois do primeiro livro publicado, um dos melhores momentos que tive foi ouvir outra pessoa falar sobre aquilo que eu tinha escrito e sobre como isso lhe tinha levantado tantos pensamentos e questões sobre a vida e o mundo. Quero continuar a despertar esse tipo de sensação.

Pensas voltar a publicar um livro? O que podes adiantar sobre isso?
Sim. “O Dia em que Nasci” vai ter uma sequela. Planeio lançar esse livro lá para 2017. Mas entretanto, ainda este ano, lançarei o meu livro biográfico, que conta a minha história desde o dia em que cheguei a casa e contei aos meus pais “Sou gay!”. Esse livro já tem um título e tenho preparada uma campanha especial para o divulgar. Por isso, o título que escolhi não vai dar apenas nome ao livro. Mas por agora ainda é tudo segredo. Só há uma pessoa que sabe o nome do livro. A minha irmã. E não é por acaso. O tal título é algo realmente especial, mas não consegui escondê-lo da pessoa que mais me protegeu em toda a história que este conta.

Quais são os sonhos que já concretizaste e os que ainda tens para tornar reais?
É um pouco estranho dizer isto, e nada romântico, mas não me sinto em busca de realizar algum sonho agora. O meu maior sonho era publicar o livro. Tinha outro que era visitar Itália e Firenze (Florença). Realizei esses 3 sonhos no ano passado, mesmo antes de chegar aos 30 anos (que completei há uns dias). Quero com isto dizer que fechei um ciclo de sonhos perfeitamente. Claro que tenho outros objectivos, outros vão surgindo, mas tudo o que vier agora é sempre por acréscimo. E depois de chegar aos 30 acho que é tempo de começar a inventar outras ambições.

Se tivesses direito a 3 coisas para dizeres ao mundo inteiro, o que dirias?
Primeiro, dizia que temos que acabar com todo e qualquer preconceito. Depois, dizia que devemos basear-nos mais no amor e colocar de lado a palavra ódio (que é uma palavra que eu detesto até escrever!). E, por fim, dizia a todos para verem menos televisão e passarem a ler mais. E depois de dizer uma coisa destas seria pouco adorado, provavelmente. Mas eu nunca fui de dizer só coisas bonitas (risos).
Para mais informações, podem consultar a página do Filipe.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

"Talvez os livros que amamos sejam um pátio de brincadeiras" - Vanessa Lourenço

"A cria negra de Felis Mal'ak" é um livro cujas personagens são nada mais nada menos que gatos. A autora, Vanessa Lourenço, revela, ainda, que este é apenas o primeiro volume de uma trilogia. 
Como surgiu a ideia de escrever "A cria negra de Felis Mal'ak"? 
Há alguns anos atrás, perdi de forma abrupta um gato preto que era muito importante para mim. Dizem que as grandes dores são mudas e é bem verdade e nessas alturas opto por escrever. Prometi ao meu gato que ele teria um legado, que se tornaria imortal e que as pessoas saberiam quem ele foi. E aqui estamos.

Quem é Felis Mal'ak? 
Felis Mal’ak é um grande gato cinzento tigrado. É também um Anjo gato com um enorme papel nesta aventura. Para saberem mais sobre ele, terão que ler o livro.

A Vanessa é formada em psicologia. Os seus conhecimentos nesta área foram postos neste livro ou nem por isso? 
Não. O que não significa que para algumas pessoas este livro não possa funcionar como elemento de certa forma catártico, ou de algum conforto. Ainda que possa haver um ou outro pormenor de ligação entre ambos, não foi de todo essa a motivação.

O livro já tem uma 2ªedição. Como se sente ao ver uma adesão positiva por parte dos leitores? 
De facto, o meu livro atingiu a segunda edição no espaço de poucas semanas, o que é sem dúvida um motivo de orgulho para mim. Sobretudo por perceber que o legado do meu gato preto toca o coração de cada vez mais leitores em Portugal e por esse mundo fora. 
Que mensagem tenta passar no seu livro? 
Sem entrar muito pela história em si, existem três parâmetros muito importantes que procurei inserir nesta aventura: a consciencialização das pessoas para o que são os desafios e dificuldades que os animais de rua enfrentam por esse mundo fora todos os dias, a criação de uma janela que permita às pessoas ver o mundo pela perspectiva dos animais e por último – mas não menos importante – oferecer uma alternativa à forma como encaramos a perda dos animais que amamos. Podemos escolher ver na morte um fim, ou apenas o início de novas aventuras.

Qual é a ligação que tem com animais, nomeadamente, com gatos? 
Eu sou uma amante de animais por natureza. Sempre fizeram parte da minha vida e não vejo a minha vida sem eles. Os gatos... os gatos são criaturas muito especiais, rodeados de misticismo. E tal como todos os outros animais que cruzam o nosso caminho, têm mensagens muito interessantes para todos aqueles que estiverem dispostos a ouvir. Neste livro, todos os personagens relevantes são baseados em gatos reais da minha vida, e possuem inclusivamente traços das suas personalidades. É a minha homenagem à forma como enriquecem a minha vida.

Pensa escrever e voltar a publicar algo que não esteja relacionado com gatos? 
Neste momento não, uma vez que “A cria negra de Felis Mal’ak” é o primeiro volume de uma trilogia, da qual me encontro neste momento a escrever o segundo volume. Mas de futuro, veremos.

A escrita é, na sua opinião, um importante vínculo na imaginação das pessoas? 
As pessoas gostam de contadores de histórias porque lhes permitem ter acesso a aspectos de si mesmos que a vida de todos os dias não permite experienciar. Uma boa história detém a capacidade de inspirar, de fazer sonhar, de fazer sorrir. E muitas vezes de fazer a diferença na vida dos leitores. Não porque não detenham em si mesmos essa capacidade, mas porque lhes oferece uma ferramenta para o alcançar. Talvez os livros que amamos sejam isso mesmo, um pátio de brincadeiras onde podemos por vezes libertar-nos do que a vida nos exige e alcançar um pouco da magia que tem para nos oferecer.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

"Gosto de escrever todos os dias" - Ana Ribeiro

Ana Ribeiro é natural de Chaves, Vila Real e tem 28 anos. Em 2015, publicou, pela Editora Capital Books, o seu primeiro livro, intitulado "Um Amor Inexplicável". Licenciada em Análises Clínicas E Saúde Pública, esta jovem autora sonha viver da escrita e, quem sabe, escrever com José Luís Peixoto, uma das suas inspirações literárias. 
 1- A escrita sempre te acompanhou ao longo da vida? 
Sim. Descobri a paixão pela escrita no início da adolescência com a escrita de vários diários e com a participação em desafios simples que surgiam na revista que recebia em casa do Clube Caminho Fantástico da Editorial Caminho. Mas foi já na faculdade – em 2009 – que comecei a levar a escrita mesmo a sério e a perceber aquilo que gostava realmente de fazer e o que queria fazer o resto da vida: escrever. Ser escritora. Comecei a escrever poemas, a publicá-los num blogue que tinha e a mostrá-los a um amigo meu que foi quem me deu a ideia para a publicação do primeiro livro. Desde essa altura que nunca mais larguei a escrita, gosto de escrever todos os dias.


2-De onde brotou a ideia de escrever o teu primeiro livro - Um Amor Inexplicável? 
A ideia surgiu pelo facto de ter visto vários filmes e lido alguns livros que abordavam o tema do cancro em jovens e também há já algum tempo que me questionava sobre como é que um jovem lida com uma inesperada paixão por alguém que sofre de uma doença deste género. Queria muito trazer essa questão para um livro porque não é uma questão fácil de aceitar. 

3-Estás licenciada na área da saúde, como conjugas saúde e literatura? 
Neste momento, não estou a exercer na área da saúde, infelizmente. A situação que vivemos em Portugal e o desemprego jovem, não tem facilitado; por isso, o tempo livre que tenho é ocupado com a escrita. 

4-Já pensaste em dedicar-te a uma carreira de escritora a tempo inteiro? 
É um dos meus maiores sonhos, e é um dos grandes desafios a que me irei propor até ao fim da vida porque a escrita é mesmo aquilo que mais gosto de fazer; no entanto, sei que é um caminho sinuoso e longo porque em Portugal não é fácil viver exclusivamente da escrita. Há cada vez mais autores e o mercado é pequeno para todos, nem todos conseguem vingar e ter os apoios que precisam, para poderem mostrar o seu trabalho e serem valorizados.

5-O teu segundo livro já está a ser escrito, o que podes revelar sobre ele? 
O meu próximo livro já está pronto a ser publicado, estava previsto sair este ano, mas decidi dedicar o presente ano ao livro anterior para poder fazer mais alguma divulgação e levá-lo às escolas. É importante falar da doença oncológica no cerne da comunidade escolar; muitas vezes, quando surge um aluno com cancro, a comunidade escolar não sabe muito bem como lidar com a situação. Por isso, espero que o meu livro possa ajudar nesse sentido. Sobre o próximo livro posso adiantar que se chamará “Ao teu lado” e vai levar os meus leitores numa viagem pela forma como as diferenças entre duas pessoas podem interferir nas relações que estabelecemos com os outros. Vai ser um livro diferente do anterior, centrado numa história de amor e amizade de duas personagens que também estão presentes no livro anterior. Quero mostrar aos meus leitores a história especial que une essas duas personagens.

6-Achas que os novos autores da tua geração estão a ter visibilidade suficiente? 
Gostaria de dizer que sim; mas aquilo que sinto é que isso ainda não acontece como gostaríamos e merecemos. Apesar do enorme esforço das novas editoras que têm surgido, empenhadas em lançar novos autores no mercado, o mercado livreiro não nos dá o apoio que precisamos, não apostam muito nas nossas obras, sinto que, de certa forma, as grandes empresas livreiras dão mais valor aos autores que já têm uma carreira consolidada e que sabem à partida que eles vão vender muitos livros. Muitas vezes o que lhes interessa é o lucro.

7-Escreves regularmente no teu blogue. A escrita completa-te como mulher e como pessoa? 
Plenamente. A escrita mudou-me muito como pessoa, permitiu-me perder uma boa parte da minha timidez, ganhei autoestima e mais confiança. Ajuda-me nos momentos de mais stress e ansiedade. É parte de mim, do que sou, da minha personalidade e identidade.
Acho que já não sabia viver sem a escrita e sem escrever todos os dias.

8-Quais são os teus maiores sonhos, dentro e fora da área da literatura? 
Dentro da literatura: sonho com o dia em que conseguirei viver só da escrita; sonho ter oportunidade de escrever um livro com o José Luís Peixoto – que é um dos meus autores de eleição. Sonho, conseguir ser reconhecida pelo meu trabalho.
Fora da literatura: sonho com o dia em que o país em vivemos consiga dar mais valor aos jovens e que a era do trabalho precário termine para que possamos seguir o sonho de exercer na área dos nossos cursos, sem sermos mal pagos e escravos das entidades empregadoras. É uma das coisas que mais me revolta, lutamos tanto para tirar um curso superior que depois vai perdendo viabilidade. Sonho poder exercer na área do meu curso, conjugar a saúde com a literatura. Sonho um dia viajar até Nova Iorque, é uma cidade que adorava conhecer.

9-Imaginas-te a escrever e publicar algo que não seja um romance? 
Sim. Tenho algumas ideias, apesar do género romance ser o meu preferido. 

10-Acreditas que a literatura possa mudar o mundo?
Claro que sim. Apesar de achar que as pessoas lêem cada vez menos, penso que a literatura tem um impacto muito forte sobre as pessoas e por consequência a longo prazo poderá mudar o mundo. Assim o espero.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

O Fim

Engoles uma reflexão e respingas:
- Eu não vou chorar. Eu não choro. 
No fundo, não queres pensar, apenas desfrutar. 
Sabes que, um dia, tudo irá acabar e é provável que a tua vida volte a deixar de fazer sentido. Por agora, está tudo bem, demasiadamente bem, melhor do que nos teus maiores sonhos. 
Temes mais do que tudo o dia do fim. A cada dia que passa, sabes que ele se aproxima e queres fugir para o passado, voltar ao primeiro dia em que te sentiste assim, ou simplesmente fazer parar todos os relógios do mundo. Sabes que há momentos que poderiam durar para sempre e que esse é um desses momentos.
Agora, no conforto das paredes do teu quarto, as lágrimas soltam-se, uma após outra. O teu tempo está a acabar, sabes que tens que dar lugar a outra pessoa. Isso dói e reconforta ao mesmo tempo. 
Pensas: Porquê eu? Porquê isto na minha vida? Será que mereci? Será que aproveitei a 100%? Terei desperdiçado alguma parte? 
Pensas: Porquê um fim? Porquê este turbilhão de emoções? Porquê estas lágrimas? Alegria, medo, saudade, tristeza, nostalgia? 
Pensas: Quero viver intensamente como se não houvesse amanhã!
Pensas: A vida é tão curta...
Pensas: Porque fiz uma pausa no relógio da vida para escrever isto? 

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Não se amam as ausências

-Amo-te 
Silêncio. 
-Entendes o que quero dizer? 
Indagações mentais. 
-Amo-te, neste momento. 
Agora percebes. 
O amor floresce em cada momento. Não é o mesmo amor que nos acompanha em vários momentos. Amamos no momento. Passado o momento não amamos mais, a não ser as memórias que ficaram desse momento. 
-Amo-te, neste momento 
Neste momento em que me deixo envolver pelo calor dos teus braços e em que te beijo apaixonadamente. 
-Amo-te 
Amanhã já não te vou amar. Daqui a uma hora já não te hei de amar se já não estiveres comigo. Não podemos amar ausências. Não amamos as pessoas quando elas não estão connosco. Amamos cara a cara. Não amamos as pessoas pelas mensagens que nos enviam, amamos o sorriso que permitem o nosso rosto estampar, a sensação de felicidade que provocam em nós.
-Amo-te tanto! 
Amamos intensamente, com toda a força, com toda a dedicação, porque o amor nunca esgota, e quanto mais se exercita mais se tem. Amamos no momento. Depois do momento, só amamos as memórias. E só amamos as memórias quando nos lembramos delas. Não amamos todas as memórias ao mesmo tempo porque não pensamos em todas ao mesmo tempo. Amamos e desamamos conforme o contexto. 
Amamos porque somos humanos e temos esta capacidade única de amar. 
Temos, porém, que perceber que o amor não é como nos ensinaram os contos de fadas. O amor não é um "para sempre", o amor é momentâneo por mais reles que possa soar esta afirmação. 
Não nos sentimos sempre da mesma forma. Por vezes, sentimo-nos felizes, noutras vezes, sentimo-nos tristes. Nenhuma felicidade dura sempre, nenhuma tristeza é eterna, o mesmo acontece com o amor. Sentimo-nos amantes durante alguns momentos. Noutros momentos, existirão outras sensações para saborear. Por vezes, misturamos algumas. Tudo bem. Um misto de sentimentos nunca matou ninguém (penso eu). 
-Amo-te, ok? 
A única opção é assentir. O amor dá-se e recebe-se. No momento. 
Desilusões amorosas não são, contudo, mitos. Existem. Quando nos focamos demasiado no amor que sentimos pelas memórias que alguém nos deixou, quando criamos ilusões, quando nos mentem. 
-Vou amar-te para sempre - isto nunca se diz!! 
-Amo-te - quando te disserem isto, lembra-te: é no momento, não é para sempre!, não te comeces já a iludir. 
Pronto. Assim ninguém se ilude. Amamos no momento. Depois do momento, é seguir em frente. Temos recordações, vamos amá-las de vez em quando até que fiquem calcadas por novas recordações, novos momentos em que amamos.
Amar não pressupõe qualquer compromisso. Portanto, podemos amar assim. Só não temos que enganar ninguém. E ninguém tem que se iludir. 
Um amo-te é dito no presente. Passado uma hora, esse presente já é passado. 
-Amo-te 
-Amo-te 
Amemos em cada momento. Amemos com todo o coração, com todo o amor, sem pensar, sem reclamar. 
Mas amemos as pessoas e paremos de amar as memórias. 
Agarramo-nos às memórias do passado e ficamos cegos para o presente. 
Amar é um verbo que só se deve conjugar no presente. 
-Amo-te 
Jamais 
-Amei-te 
Nunca
-Amar-te-ei.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Escreve-me. Ou lê-me.

És a peça em falta. Tu que eu não sei quem és. Tu que estás algures fora ainda da minha vida. Tu que eu procuro incessantemente em noites de insónias. Tu de quem eu sinto a falta nos meus momentos de nostalgia profunda (é de ti, certamente). Tu que me deixas vulnerável com a tua ausência. Tu. Apenas tu. 
Por onde andas, mesmo? Vais contar-me quando cá chegares, não vais? Eu vou querer saber. Vou indagar!, prepara-te. 
Não te peço muito. Apenas que me ames e me deixes amar-te. Apenas que me completes.
És capaz? Serás? 

Escreve-me. Ou lê-me. 
Não imaginas como me apaixono facilmente por palavras. Os gestos são bonitos, encantam. Mas as palavras apaixonam. A delicadeza de uma frase pode superar a de um braço ou a de um beijo.
Se não te deres bem com a escrita, então, lê-me. Até porque posso escrever para ti. Queres? Eu iria gostar muito, tenho a certeza. 
Não é pedir muito pedir que me escrevas ou que me leias, pois não? Não pode ser. Aliás, até faculto duas opções. Ou me escreves. Ou me lês. Podes escolher. 
Já te escrevo e ainda não me lês. Mas um dia vais ler. Se não leres, vais escrever-me. É para ti que escrevo, para ti que hás de ler, a menos que me escrevas. 
Podes ler-me no silêncio das minhas palavras, por vezes. Podes ler-me na calmaria do meu olhar, ou na sua confusão, será conforme. Podes ler-me das minhas atitudes de amante. Podes, se quiseres, ler-me nos meus sonhos, nos meus medos.
Acredito que escrever-me seja uma tarefa mais penosa. Afinal de contas, sou extremamente crítica e poucos autores me agradam.
Vou escrever-te com toda a minha inspiração. E tu vais ler-me. E eu vou ficar grata e feliz por isso. Oxalá tu também fiques (feliz).

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

"Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos" - Patrícia Rebelo

Patrícia Rebelo é autora do livro "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro"  - um relato sentido de uma jovem que perdeu dois anos de memórias, tendo que enfrentar uma vida da qual não se recorda. 
A autora com o seu livro
A escrita é, para ti, um refúgio ou vai além disso? 
A escrita, para mim, é um refúgio. É o tentar expressar os meus sentimentos, é o tentar resolver os meus problemas e conseguir encontrar alguma resposta para eles, mesmo que tenha que ser eu a dar essa resposta.

"Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" - porquê este título? 
Porque foi, efetivamente, isso que o Diogo me disse. Este livro é muito acerca do Diogo, que é o rapaz com quem eu namorei, e é muito direcionado a ele, quer eu queira quer não. Eu andei muito às voltas com o título, a certa altura não sabia que título colocar. Mas, um dia, escrevi um texto que se chamava "Um Dia Disseste Que Eu Devia Escrever Um Livro" e foi do género: É este!

Sentes que deste demasiada importância ao Diogo? 
Sim. Mas toda a gente dá demasiada importância ao primeiro amor, portanto...

"Cartas À Tua Ausência" era, inicialmente, o nome da tua página no facebook. Que tipo de conversas podemos ter com a ausência?
Várias. Eu com a ausência do Diogo tive bastantes. As primeiras foram conversas de raiva do género: porque é que ele estava ausente? porque é que ele não dava um passo para estar presente? Depois foi deprimir por causa dessa mesma ausência. Há muitos textos em que tu deprimes e consegues criar ali qualquer coisa. E, efetivamente, depois é o bater a porta e: "ok, minha amiga, vamos ter uma conversa a sério por tudo aquilo que eu passei", e resolver o assunto. 

Escrever sobre sentimentos é um ato de coragem ou desespero? 
Nem uma coisa nem outra. Há pessoas que me disseram que era de coragem por expor os meus sentimentos. Outras pessoas disseram-me que seria um bocadinho de desespero. Eu não acho que seja nenhum dos dois. Eu acho que cada pessoa arranja uma forma para se conseguir resolver, naquele momento aquela foi a minha forma. Portanto, foi uma forma de resolução.

Acreditas no amor? Sentes-te capaz de voltar a amar? 
Sim. Até aqui não conseguia porque tinha sempre o Se. Se fosse com o Diogo, se resultasse... Neste momento, isso já não acontece. No entanto, o rapaz que vier agora vai ter que provar muita coisa. Não chega dizer: "olha eu gosto muito de ti, vai ser para sempre" porque isso já não pega. 

Se pudesses voltar atrás e escolher, evitarias a perda da memória ou sentes que aquilo que acabaste por ganhar com isso superou dois anos de memórias esquecidas?
Isso é uma pergunta complicada! A perda de memória não foi algo que eu escolhi. Antes da perda da memória sei que tomei decisões minhas das quais estava muito segura. Se calhar, se não tivesse perdido a memória ainda estaria com o Filipe, todos diziam que tínhamos um namoro firme. Mas se calhar também não tinha dado origem ao livro, não me tinha descoberto na escrita, que tinha sido uma coisa que eu tinha deixado um bocadinho para o lado. No meio disto tudo, já aprendi a lidar com a perda da memória.

É difícil, para ti, imaginar como é que seria se não tivesses perdido a memória?
Sim. Sim até porque para isso teria que colocar o Filipe e uma data de situações que para mim não existiram e existem só porque as pessoas me dizem que existiram, mas aquilo que eu fiz quando perdi a memoria foi voltar ao Diogo, que era aquilo que eu conhecia. Por isso, se não perdesse a memória não sei o que havia ali, portanto, não faz sentido ponderar sobre isso. 

"Como sobrevivemos quando já não nos lembramos de quem somos?"
Não sobrevivemos. Este livro é a prova disso. Tenho um capítulo, que é o 56, que fala exatamente da perda da memória e mostra que não conseguimos sobreviver, vamos lidando com isso, reconstruindo a nossa vida. Mas não sabemos o que há ali para aprender. Por exemplo, não vejo a minha vida agora a fazer planos, também não acho que seja uma questão de sobrevivência, mas uma questão de defesa. Quando não nos lembramos simplesmente achamos que não existimos, há uma parte que não é nossa, há uma vida que não é nossa e toda a gente diz que é. Termos que lidar com isso é desesperante e não conseguimos viver nem sobreviver com isso. Quando conseguimos encaixar isso e chegamos ao ponto de "ok, de facto temos que lidar com isto porque isto aconteceu, eu perdi a memória, há uma vida de que não me lembro, vamos encaixar isso" é muito complicado. Eu olhava para as fotografias e não achava que era eu, não me lembrava. Por isso, não se sobrevive. É apenas um dia de cada vez. Este livro mostra isso. Acabamos por não fazer planos e o futuro é um dia de cada vez. Vamos vivendo.
Cátia Cardoso Entrevista Patrícia Rebelo