quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Amo o Campo, mas sou da Cidade.

É verdade que cresci junto às margens do rio menos poluído da Europa e que a natureza sempre me inspirou e me fez feliz. Sempre fui da aldeia, mas sempre amei a cidade. Pela sua imensidão de luzes, pelo barulho dos carros, pelo tão simples acesso à arte e à cultura, pelo stress do dia-a-dia, pela sua dinâmica tão mais viva que a da aldeia. Hoje, sei que, como em todos os dias da minha vida, desde sempre, amo a aldeia e o campo, mas sou da cidade. Sou-lhe pela forma como me entrego e a abraço em mim, pela forma como lhe dou de mim e me envolvo nas suas iniciativas. E continuo a ser grande apreciadora da aldeia e do campo, a amar o rio e a serra, a gostar do descanso ali proporcionado. Mas hoje sei que não posso voltar às costas à rotina da cidade, à azafama de um dia-a-dia agitado, onde se corre contra o tempo, mas há tempo para um café de final de tarde, numa pastelaria do centro da cidade, onde o cheiro do pão acabado de sair do forno não cessa. E há tempo para ir ao cinema, ao teatro e a todos os espetáculos que nos incubem interesse. E sou da cidade, seja uma grande ou uma mais pequena, seja uma industrial ou uma mais cultural. Sou da cidade porque quero e porque é onde me sinto em casa, embora não viva sem a aldeia e tudo o que a esta está ligado, mas sou da cidade.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Outono e ruas

Está tão bonita a rua, escondida pelas folhas, que, em jeito de rebeldia, se soltaram das árvores. 
Está tão bonita a rua, pela manhã, quando ainda não foi varrida. 
Está tão bonita a rua, sobre a qual posso caminhar enquanto pontapeio folhas. 
Está tão bonita a rua. 
Por favor, olhem todos.
Demora um minuto, ou cinco segundos. 
Tudo depende da intensidade e entrega do olhar.
Mas está tão bonita a rua, agora molhada pela chuva. 
Está tão bonita a rua. 
Transmite delicadeza e amor.
Transmite paz e felicidade.
Está tão bonita a rua.
Eu juro que a rua está tão bonita.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

21 de outubro, 15:31

Gosto de estações de comboios. Acho que gostaria de qualquer forma, mas Coimbra tem-me permitido fomentar este pequeno amor. Gosto de estações de comboios ao ponto de sair propositadamente uma hora mais cedo de casa só para ficar na estação, a observar e a sentir o contexto e o ambiente. 
Gosto do som das malas a deslizar pela linha, dos telefonemas a dizer a hora de chegada, das despedidas, dos reencontros. E gosto ainda mais quando estou de caderno e caneta na mão a registar tudo isso. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Posturas

A nossa passagem é sempre mais curta do que aquilo que gostaríamos. Embora poucos admitam um desejo de eternidade, muitos são os que acrescentariam, se pudessem, décadas de anos aos que lhes estão destinados a viver. E somente a sensação de que se viveu intensamente pode aliviar a dor do pensamento de morte/fim. Não, não se consome todo o desalento, o fim é algo que, não só na vida, nos transtorna e nos desassossega de forma inevitável. No entanto, a entrega cedida aos momentos e o vivenciar cada um intensamente são formas de amenizar as feridas do adeus - ou do medo dele. E são também posturas que em muito contribuem para a felicidade e satisfação pessoais. 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Começou para acabar

Começou para acabar. Não é o que acontece com tudo? Tudo o que começa, acaba. Não é que comece exatamente com o fim único de terminar um dia, porém, é a primeira e maior certeza que podemos possuir em qualquer contexto e circunstância. Tudo tem um fim. É a lei da vida, a própria também o tem: a morte. Tudo tem um fim, mas há fins mais dolorosos que outros. Não vacila a consciência de que esta é "a ordem natural das coisas". Contudo, a determinação do pensamento é incapaz de amenizar o pânico do adeus - essa palavra tantas vezes pronunciada e da qual todos querem fugir. Há "coisas" que nos marcam profundamente, pelos mais variados motivos, mas principalmente porque nos mudam, tornando-nos melhores seres humanos e pessoas mais felizes. E por mais intensamente que se viva cada momento não há nada que apazigúe a dor de sentir o fim aproximar-se. O prazo é curto e as saudades são precoces. Somos tão fortes e tão frágeis quando nos deixamos sentir. Mas a vida vale a pena. As alegrias compensam pelo prazer proporcionado. E a vida desenrola-se em dois culminares: prazeres e dores. E há claramente prazeres que provocam dores e dores que proporcionam prazer. Aqui é assim. É tudo muito triste porque é tudo muito bom. Aliás, é melhor que bom, é tudo tão perfeito, tão maravilhoso... E por isso também é tudo mais que triste, é desolador e horripilante. E por isso mesmo acabando, é tão gratificante ter existido!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Fome de outono

Estou esfomeada pelo castanho das folhas das árvores e pelo som da chuva a cair. Estou esfomeada pelos dias curtos, pelo anoitecer precoce. Tenho fome de botas e casacos quentinhos. Tenho fome do outono, a única estação idónea de me saciar plenamente. A estação das paisagens bonitas e das minhas roupas preferidas. A estação mais acolhedora de todas. O calendário já lhe deu início, porém, a natureza ainda não. E eu, que a amo incondicionalmente, perdoo-lhe o atraso, que a cada dia que passa aumenta a minha fome. E tenho sede de uma bebida quente, enquanto me enrosco no cobertor de um sofá. E tenho sede da chuva a fazer-me companhia no percurso de casa até às aulas. 
Para mim, o outono é a estação do amor, da paz, da felicidade, do convívio, da tranquilidade, do conforto, enfim, de tudo o que é bom e tendo a apreciar. É a época mais linda do ano, a que mais delicia o nosso olhar e nos aquece o coração - pelo menos o meu aquece. 
Estou esfomeada pelo outono desde que ele terminou. Tenho passado os últimos meses insaciada e vejo-me agora perto da saciedade. 
Daqui a alguns minutos, é outubro. Outubro é sinónimo de outono, até as primeiras três letras são iguais. Ambas as palavras remetem para o cair das folhas, para as árvores despidas, para  os dias curtos, as primeiras chuvas e o desabrochar do frio. E é tão bom o frio que o anseio descontroladamente.  
Tenho fome de outono. Sinto-lhe o aproximar e desperta-se em mim o prazer da excitação. O outono está aí à porta, e a minha sempre esteve aberta à sua espera.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Pensamento/s do dia

Há dias em que acordo com vontade de escrever, não necessariamente de ser escritora - termo com o qual estou longe de me identificar - mas de escrever e fazer da escrita vida.
Há dias em que acordo a querer ser atriz e fazer do teatro vida. Formar uma Companhia e percorrer o país a apresentar peças diversas da minha autoria. Casar com o teatro. 
Há dias em que acordo a querer ser fotógrafa. Acordar antes do nascer do sol e colocar-me em sítios e posições de risco para fazer uma boa fotografia. 
Há dias em que acordo com o sonho de ser realizadora de cinema, de fazer filmes e metragens. 
Há dias em que me sinto fascinada pelo jornalismo e me imagino numa redação, em deslocar-me com bloco de notas e caneta na mão, a entrevistar fontes e a recolher dados.
Há dias em que acordo e não me apetece fazer nada, não me apetece sair da cama, não me apetece tirar o pijama. Também tenho dias em que quero ser procrastinadora.