domingo, 1 de janeiro de 2017

Janeiro e Crianças

Janeiro é o início do ano e as crianças são o início da vida. Creio ser legitima tal afirmação. Crianças. A faixa etária do ser humano que uns repugnam e outros idolatram. O que têm estes seres que os distingue? A maioria dos adultos tem algo que a distingue das crianças: não se lembrar de como é ser criança. Cresce o ser humano e apaga-se-lhe de imediato a memória dos tempos em que a inocência era a sua maior caraterística. 
Talvez seja ilógico que alguém que saiu há tão pouco tempo da adolescência venha agora falar da infância como se de uma pessoa de idade média se tratasse. Ou talvez só o faça por ainda ter presente grande parte das recordações destes tempos de início de vida. (Assim se espera que o tenha sido: início de vida.) Os adultos esquecem-se de que já foram crianças. Mas, como pessoas mesquinhas que são - que somos, peço desculpa - só se esquecem para o que lhes é vantajoso. Para apanhar uma mentira, para percecionar uma criança que se prepara para fazer, ou que já fez, uma traquinice, para, enfim, se vangloriar, dizendo "Eu também já tive a tua idade...". Posto isto, quantos adultos se lembram de como se sentiam com castigos, repreensões, posturas e palavras com que eram confrontados nos seus tempos mais precoces? Quantos adultos, ao repreender - ou chamemos-lhe educar(?) - uma criança é que se colocam no lugar da mesma para tentarem perceber como é que ela se sentirá? Que se acusem todos, porque, até hoje, cruzei-me com não mais que meia dúzia deles.
Saramago - esse grande indivíduo - dizia que as crianças estavam sempre a nascer, porém, nasciam "de cada tristeza sofrida em silêncio, de cada desgosto padecido, de cada frustração imerecida" e alertava - e bem! - para o cuidado que se deve ter com uma criança. Talvez seja injusta a comparação, mas é frequente que se tenha mais cuidado com um idoso do que com uma criança e isso, sim, sem talvez mas com toda a certeza, é injusto. Há que ter cuidado, mesmo muito cuidado, com as crianças. Há que as educar - que é o que menos se faz com elas, hoje em dia - há que as saber cuidar e, acima de tudo, compreende-las sem que tenham de ser elas a falar. 
Já todos fomos crianças. Se nos afundarmos por breves minutos na memória vamos entender que também tivemos as nossas tristezas sofridas em silêncio, os nossos desgostos padecidos e as nossas frustrações imerecidas. Não contribuamos para que outras crianças passem por isso também. E é-vos isto dito por alguém que, saibam, não é, de todo, amante da infância nem das crianças - pela forma como estas são iludidas pelos adultos e pela falta de educação que estas têm, embora a culpa não seja delas, mas sim dos seus educadores. É-vos isto dito por alguém que estima as crianças enquanto faixa etária e enquanto seres humanos - embora saiba que seres humanos há bons e menos bons. É-vos isto dito por alguém que já foi criança e não esquece isso - nem vai esquecer, certamente, que de falta de memória nunca padeceu. É-vos isto dito, note-se, por alguém implora a atenção da humanidade para as crianças. Uma atenção que preze pelos valores, educação e sentimentos delas. Uma atenção que as cuide, como se rega uma flor que acabou de nascer. Afinal, elas são o início (da vida), e se o início não for bom, é seguro dizer que, sem bases, nada (de bom) se construirá.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Aos meus Doutores

Mãe, tenho medo
Não me deixes sozinha, peço-te.
Mãe, estás mesmo a deixar-me ir?,
Eu até pensava que ia gostar de viagens de comboio
Mas, nesta, sinto-me perdida e insegura. 
Mãe, já cheguei.
Estou curiosa para conhecer o que me espera, 
Mas continuo com medo. 
Mãe, já não tenho medo, 
Pelo menos da praxe, é divertida!
E já gosto de Coimbra... até nem estou a ser mal acolhida. 
Mãe, hoje, conheci-os
São tantos que nunca vou saber o nome de todos
Mas tratam-me bem, eu juro que tratam! 
Já é sexta-feira e eu já nem quero ir embora. 
Mãe, agora tenho uma segunda família
E gosto muito dela porque tal como contigo
Sinto-me protegida aqui. 
Mãe, eles praxam-me!
E gritam quando as coisas não são bem feitas
E choram quando se ouve a Balada da Despedida do 5ºano jurídico 
Mãe, eles têm alma, dinamismo e convicção a correr-lhes no sangue 
E vestem-se de preto mas as suas almas são coloridas.
Mãe, começo a sentir algumas coisas mais fortes
E a culpa é deles, a culpa é deles
Que nos transmitem valores tão importantes. 
Mãe, isto passa a correr, 
Alguns deles já se foram embora
Isto é um ciclo que a cada volta traz uma nova geração e leva outra.
Mãe, eu já sei o nome de todos
Dos que foram e dos que ficaram e vão continuar a praxar-me
Mãe, quero muito que eles tenham orgulho em mim
Porque eu tenho muito orgulho neles
Naquilo que eles são e naquilo que eles me fazem ser.
Ai, mãe!, o meu coração nunca foi tão pequenino
Como quando nos abraçamos em círculo para ouvir a Balada. 
Sabes, mãe, esta parte bonita já está a acabar. 
Eles fizeram um bom trabalho, eu sei que fizeram...
Mãe, mãe, mãe. Mãe!, olha para mim!
Estou vestida de preto como eles, 
Ainda estou longe de ser como eles
Mas já amo a minha capa, porque eles me ensinaram a amar esta cidade.
Mãe, agora estou ao lado deles, de pé
Em vez de estar à frente, de quatro 
Mas continuo a admirá-los, a respeitá-los
E a olhá-los com orgulho, com tanto orgulho!
Mãe, agora eles vão embora...
Vão mesmo e eu nem consigo acreditar.
Lembras-te de eu ter dito que isto era um ciclo?
Ninguém fica cá para sempre e eles vão-se embora, 
Embora fique sempre em mim um bocadinho de cada um deles.
Mãe, olha só para eles, tão crescidos
Tão lindos e de malas feitas, prontos para uma nova aventura.
Ah, mãe, eu morro um bocadinho ao vê-los partir
Mas estou tão feliz por eles!
E desejo-lhes o melhor, o melhor do mundo.
E estou-lhes tão grata para toda a vida,
Porque se sou feliz aqui, se sinto os valores da cidade, se canto o hino com alma, dinamismo e convicção, se a minha capa é pesada, se a Balada me emociona, se sou uma doutora empenhada, se respeito cada bocado de Coimbra e da praxe .... a culpa é deles. 
E sabes, mãe, eles também foram um bocadinho de mãe para mim.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Feio dezembro


Este dezembro chegou. Algum dia haveria de chegar este dezembro do ano de 2016. Chegou, talvez mais cedo do que aquilo que eu mesma teria gostado. Ou talvez eu - que nada sou - desejasse que este dezembro nunca chegasse. E se calhar até que nenhum dezembro chegasse. É frio, eu sei. E ainda há outono aqui. Porém, é escasso em alegrias, sem o ser no seu antónimo. É que este dezembro é mais frio que os outros. Traz em si flocos de neve capazes de se entranharem no meu corpo e gelarem cada osso com que me construo e me faço gente. Este dezembro é frio e isento de qualquer pedaço de poesia. Este dezembro é o mês que eu não quero no meu calendário, é a minha menos querida forma de terminar um ano guloso. Este dezembro chegou, ainda agora, e eu - que nada sou, eu sei - só clamo que se vá o mais depressa possível. E acrescento até um "por favor".

domingo, 27 de novembro de 2016

O fomento da arte ou o desvalor da mesma?

Anda por aí a vaguear a notícia de que os museus passarão a ser grátis aos domingos e feriados de manhã - com outros pormenores que por aí escreveram e que agora não interessam nada. A gratuitidade dos museus - ainda que apenas nas manhãs dominicais - parece estar a agradar aos leitores dos media portugueses, bem como aos amantes de museus, arte e património.
Fomentar a arte e a cultura deve sempre ser prioridade de qualquer governo - não tem sido - porém, mais do que qualquer outra área, a cultura deve ser valorizada - também não tem sido como deve ser - e esta medida, embora possa promover a cultura também pode ser apontada como uma desvalorização à mesma. Oxalá não seja, mas a verdade é que ninguém preza da mesma forma uma coisa que lhe foi oferecida gratuitamente e uma coisa que exigiu de si algum - ainda que simbólico - esforço (financeiro). 
E é mais que óbvio que o governo deve facilitar o acesso à arte e os museus são verdadeiros cofres de arte. Porém, que se tenha sempre em consciência o valor que pode aqui estar a ser colocado em causa. 
Na sociedade portuguesa é cada vez mais típica a preguiça em pagar para aceder à arte, as mentalidades nacionais continuam a pensar que os artistas não devem ser pagos, porque ser artista não é profissão nenhuma, porque isto e aquilo. É preguiça, é mesmo preguiça. Por que razão deve a arte ser gratuita? A resposta é simples: porque é desvalorizada. Somente quem entende o valor artístico pode compreender o quão justificável é que esse mesmo seja recompensado. 
Quem gosta de comida, paga para ir a um bom restaurante, tal como quem gosta de moda, paga para adquirir as roupas e acessórios, e quem gosta de futebol, paga para assistir aos jogos; e ninguém se importa, ninguém se queixa. Porque gostam, porque veem os gastos como um investimento - uma despesa que nos traz felicidade chama-se investimento. Então, invistam na arte, se a apreciarem. Só não exijam gratuidade neste campo, quando não a exigem noutros, independentemente de se estar aqui a falar de algo diretamente relacionado com o Estado. 
Têm grande lógica os descontos - para estudantes, desempregados e reformados - mas o carater gratuito revela aqui uma pincelada de desprezo e isso não pode ficar silenciado. 
Ainda assim, que tais palavras aqui escritas o tenham sido erradamente para que a desvalorização mencionada não exista. Acima de tudo, aprovem-se as medidas que se aprovarem, que se preze sempre aquilo que de mais especial um país pode ter: a arte. E com ela, a cultura e o património.

sábado, 26 de novembro de 2016

Quem Quer Ser Arouquense?

Uma vila pacata, longe dos olhares da comunicação social, quase invisível no mapa português e de nome desconhecido para a maior parte do país. Esta era Arouca. Era. Já não é mais. E os motivos da "revolução" são bem diversificados. 
Pode falar-se primeiramente de um clube de futebol que deu os primeiros pontapés nos media por ser treinado pelo apresentador de televisão Jorge Gabriel. Um clube que, alguns anos depois, sem espaço para grandes loucuras e através da competência dos envolvidos, conquistou a primeira liga, e se atreveu, inclusive, a pisar a liderança da mesma (quando venceu o Benfica, em agosto de 2015). Para, três épocas depois, marcar presença na Liga Europa.
Inevitável seria não falar também de uma construção de madeira que acompanha as margens do rio Paiva ao longo de 8kms e que se tornou um fenómeno para todos os curiosos e amantes da natureza. Os Passadiços do Paiva foram um contributo fulcral para colocar "Arouca na Moda", desde os inúmeros artigos publicados nos mais diversos blogues, às infalíveis hashtags e fotografias partilhadas nas redes sociais, passando naturalmente pela imprensa e televisão
Por menos bons motivos, Arouca salta para o panorama noticiário português por ser a naturalidade e transitório esconderijo do homem mais procurado de Portugal, que, sendo acusado de provocar mortes, sequestros e furtos, foge desembaraçadamente às autoridades, durante quatro semanas, acabando por se entregar...onde? Exatamente, em Arouca, para onde correm novamente todos os órgãos de comunicação social. Entre diretos e exclusivos, a palavra "Arouca" é proferida incontáveis vezes para todo o país, (e mundo, através da RTP Internacional). 
É verdade que Arouca sempre foi privilegiada pelo seu património cultural, natural e gastronómico - sempre tão ricos-, no entanto, nunca, nos mais recentes anos, foi tão falada e conhecida e visitada como nestas últimas dezenas de meses. 
Seja pelos frequentes eventos da terra ou pelos cobiçados Passadiços do Paiva; seja pela vitela de Raça Arouquesa ou pelos doces conventuais; seja pela procura e entrega de Pedro Dias ou pelo turismo - sempre tão promovido; seja por concentrar os mais preocupantes incêndios do país ou pelo Futebol Clube de Arouca; Arouca é incansavelmente discutida e já mostrou não ter impedimentos para, de alguma forma, se integrar no agendamento dos media e estar na ordem dos assuntos do dia. E dos meios de comunicação social às conversas de café e de rua a distância é pequena. Se antes quando se dizia que se era de Arouca isso nos obrigava a explicar que o concelho "é uma vila que pertence ao distrito de Aveiro mas é mais perto do Porto", hoje em dia, quando se diz que se é de Arouca não são precisas mais explicações, independentemente de se estar no Norte, Centro ou Sul de Portugal. 
Afinal, o que aconteceu com esta localidade do Douro Litoral? Como é que em escassos anos alcança um estatuto de conhecimento tão elevado? As coisas acontecem. E aqui não foi só uma nem duas, foram várias. E foram concentradas. Se se irão continuar a suceder?, não há como pressagiar. Tal como é também impossível de prognosticar se, daqui a meia dúzia de anos, já todos se esqueceram de onde é, como é e o que existe em Arouca. 
E mesmo que apareça um pouco conhecido jornalista para dizer que Arouca é uma terra feudal - saber-se-á lá porquê - o certo é que, por agora, "Arouca é moda", como dizem por aí. Embora todos saibamos que nenhuma moda dura para sempre, não é verdade!?

Crónica da edição de novembro do Roda Viva Jornal 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Amo o Campo, mas sou da Cidade.

É verdade que cresci junto às margens do rio menos poluído da Europa e que a natureza sempre me inspirou e me fez feliz. Sempre fui da aldeia, mas sempre amei a cidade. Pela sua imensidão de luzes, pelo barulho dos carros, pelo tão simples acesso à arte e à cultura, pelo stress do dia-a-dia, pela sua dinâmica tão mais viva que a da aldeia. Hoje, sei que, como em todos os dias da minha vida, desde sempre, amo a aldeia e o campo, mas sou da cidade. Sou-lhe pela forma como me entrego e a abraço em mim, pela forma como lhe dou de mim e me envolvo nas suas iniciativas. E continuo a ser grande apreciadora da aldeia e do campo, a amar o rio e a serra, a gostar do descanso ali proporcionado. Mas hoje sei que não posso voltar às costas à rotina da cidade, à azafama de um dia-a-dia agitado, onde se corre contra o tempo, mas há tempo para um café de final de tarde, numa pastelaria do centro da cidade, onde o cheiro do pão acabado de sair do forno não cessa. E há tempo para ir ao cinema, ao teatro e a todos os espetáculos que nos incubem interesse. E sou da cidade, seja uma grande ou uma mais pequena, seja uma industrial ou uma mais cultural. Sou da cidade porque quero e porque é onde me sinto em casa, embora não viva sem a aldeia e tudo o que a esta está ligado, mas sou da cidade.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Outono e ruas

Está tão bonita a rua, escondida pelas folhas, que, em jeito de rebeldia, se soltaram das árvores. 
Está tão bonita a rua, pela manhã, quando ainda não foi varrida. 
Está tão bonita a rua, sobre a qual posso caminhar enquanto pontapeio folhas. 
Está tão bonita a rua. 
Por favor, olhem todos.
Demora um minuto, ou cinco segundos. 
Tudo depende da intensidade e entrega do olhar.
Mas está tão bonita a rua, agora molhada pela chuva. 
Está tão bonita a rua. 
Transmite delicadeza e amor.
Transmite paz e felicidade.
Está tão bonita a rua.
Eu juro que a rua está tão bonita.